Dance with my father

Está-se a aproximar aquela altura do ano que me deixa um bocadinho invejosa e triste. E sim, eu escrevi invejosa. Aquela inveja de quem não tem o que toda a gente tem. E não é algo material que me faz falta. É a alma. Um pedacinho dela. E escrevo disto há qualquer coisa como quatro anos, quase. E quatro anos em que nos falta um pedaço de nós é muito tempo. Uma pequena eternidade, estendida pela eternidade que está para vir de mais quatro, e mais quatro e mais quatro, por aí fora.

Faltam seis dias para o dia do Pai, mas que dia celebramos nós, os que não o têm? Não quero monopolizar a data e reclamar o fim das anunciações de amor aos pais de todo o mundo. Antes pelo contrário. É um pequeno desabafo do coração, que quer – de forma egoísta – um bocadinho do verdadeiro gosto do dia, mais uma vez. E, como canta Luther Vandross “só mais uma vez. Só mais uma dança (…).” Um cheirinho, de mais uma vez. Poder conversar cinco minutos e dizer “olha onde eu estou, olha o que eu fiz”.

É um cliché começar aqui a dizer que eu tive o melhor pai que alguma vez andou na Terra. Melhor que Deus, melhor que o Super Homem. É um cliché demasiado gordo e eu não o vou usar. Eu não tive, de forma alguma, o melhor pai. Eu tive o ‘meio-quilo’, eu tive o Zé. Eu tive o meu pai, com grande ênfase no meu! E esse pai ninguém mo tira, e ninguém mo tirou durante dezassete anos. E, mesmo após estes anos de ausência, ninguém o tira de mim. Ninguém o remove da minha família. Aquele sinal na Diana, aquela aliança na mãe, aquele meu feitio, aquele meu sobrinho.

Não tive o melhor pai do Mundo, mas tive o melhor mundo com o melhor pai que a Vida me pôde dar. E isto não são elogios post-mortem. Porque do que ele tinha de excelência tinha de medíocre. Mas essa parte má também faz falta. E ensinou-me mais do que mil abraços e palmadinhas nas costas. Foi essa dureza que me permitiram ultrapassar aqueles seis meses sem quebrar. Foi essa dureza que o fez lutar. Não sei o que foi que não lhe permitiu ficar.

Se calhar é mesmo assim. Quatro anos depois ainda não sei muito bem porquê. Mas algo faz com que as coisas boas durem pouco tempo.

Se for buscar a silver linning, sei que no futuro quero um Homem como o meu pai. Um marido como ele. Um filho que venha a ser metade. E desejo que ele nunca passe pelo grande C. Um dia, noutro dia, mais tarde, falarei sobre o C. O grande C.

 

Xoxo, C.

 

Banda Sonora que acompanhou o post: https://www.youtube.com/watch?v=Vnqy7w_libU (Love, Marriage & Divorce – Tony Braxton & Babyface).

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