Vinte e uma gramas

A pedido de uma grande amiga minha, que está a fazer um trabalho para a sua licenciatura em Psicologia, escrevi as minhas memórias em relação ao ano de 2009, mais precisamente de Abril a Novembro, que foi exatamente desde que descobri que o meu pai estava doente, até ao momento em que ele morreu. É um exercício difícil, mas uma coisa que tem de ser feita. Mais do que uma vez eu escrevi sobre isto. Acho que nunca tão extenso, nem com tanto pormenor. Há repetições do que tenho dito ao longo de cinco anos, há coisas novas. Há sempre o mesmo sentimento presente, mas é algo que me faz sempre bem escrever. E aí está. O antes, o durante e o depois. Cinco anos de memórias compactados em poucas e escassas palavras, que traduzem mal mas em suma, o que se passou, o que se continua a passar.

Obrigada, Dirce, por me pedires para fazer isto. Obrigada por me “obrigares” a exteriorizar muita coisa que eu escolho sempre guardar. Soube bem escrever, soube bem reler. Soube bem mandar cá para fora. No ano em que se completam cinco anos desde O dia, é bom ter de escrever, uma vez mais sobre isto. Sobre o grande C, sobre as vinte e uma gramas. Obrigada!

 

 

(Acende um cigarro. Dá um gole no café quente. Pára, respira fundo e começa a escrever).

1ª Fase: A descoberta
Abril 2009
Já não me lembro bem como começou. Aliás, as memórias, apesar de tantas, começam a esvanecer-se. Afinal, já lá contam quase cinco anos. Cinco anos.
Lembro-me de ser pouco tempo depois dos meus anos. Talvez um dia, ou dois. Tinha acabado de fazer dezassete anos. Lembro-me que a conversa começou a ficar séria no funeral da minha avó.
Existe também uma memória do secundário. Eu, a Joana Costa e a Liliana à brincadeira no pátio. Havia sol. Era Abril, mas a primavera já tinha vindo para ficar. Foi por essa altura. Quando tudo devia ser despreocupações e flores e passarinhos verdes. Mas não foi.
Lembro-me que eu fui mais forte que a minha irmã, um ano mais velha. E lembro-me que estranhei isso. Porque eu sempre fui mais emotiva, eu sempre fui a chorona. E eu não chorei. Logo, isto é.
Mas foi um choque.
Primeiro começou com uma tosse. Seca, irritante, normal. Ele fumava há décadas e a tosse era normal. Depois passou para sangue. E eu, como sou hemofóbica, assustei-me. Ao fim e ao cabo, não é normal. E as coisas, quando fogem do normal preocupam. Assustam.
Entre análises e biópsias e consultas, veio o diagnóstico: O grande C. Aquele de que só tínhamos ouvido falar na televisão, lido nas revistas e visto de perto apenas pelos conhecidos e um conhecido.
A primeira coisa que me lembro de ter pensado foi que “isto não pode estar a acontecer com ele”. Vamos lá ver: o meu pai nunca adoecia. Nunca ficava em casa doente e, apesar de asmático e de uma ou outra crise, nunca fora uma pessoa menos saudável. Portanto, porque raio, pensei, foi ter o grande C? Como, numa pessoa que nunca precisara de um paracetamol mais que uma vez de vez em quando, como é que essa pessoa iria precisar de radios e quimioterapias? Claro está, que naquele primeiro momento, não pensei logo nesses processos de dor que mais tarde lhe iriam acontecer. Eram muitas perguntas, muitos “porquês” e “se calhar estão errados” para pensar no passo seguinte: o do que é que se faz quando nos deparamos cara-a-cara com o grande C na nossa família, e a eminência de ele nos roubar uma parte da nossa vida.
Não me recordo como a notícia foi dada, mas acho que sem grandes secretismos, sem conversas demoradas na mesa do jantar, sem dramas. Era assim que o meu pai funcionava. Nós já éramos meninas-mulheres e não havia necessidade de esconder o que quer que fosse.
Acho que no meio de todos os cinco, a minha mãe ficou mais em choque. Digo cinco porque, mesmo que isto pareça irracional, a Reguila (a nossa cadela há mais de treze anos) sentiu. E isso via-se. Ela sabia que ele estava doente. Os animais sentem. E o meu pai era a pessoa favorita da Reguila.
A minha mãe, que sempre fora (e, de certa forma ainda é) a pessoa que de todos nós mais se fechava perante os seus sentimentos, sentiu mais as coisas. Mas nunca mostrou. Em vinte e poucos anos de vida, nunca vi a minha mãe chorar sem ser no funeral do meu pai, ou quando ele ia às sessões de quimio ou quando ele vomitava. E nunca, sem ser no funeral, foi um choro com lágrimas. Era interior. O pior, porque ela guardava tudo para dentro. E exteriorizar faz tão bem… liberta!
Depois disso tudo, foram as decisões. Haviam decisões a ser tomadas e, hoje, acho que inconscientemente, nem sempre tomámos as melhores decisões.
Lembro-me que, um dia de Abril, em Espinho, quando tínhamos ido ao funeral da minha avó (mãe do meu pai), começámos a conversa do “onde é que vais ser tratado?”. Falámos do IPO do Porto, porque era onde estavam reúnidas as melhores condições de tratamento dos doentes de Cancro em Portugal, apesar de tudo. Lembro-me da pressão que os familiares e os amigos fizeram, para que ele ficasse em tratamento no Porto. E lembro-me, claramente, da resposta: não. Ele não ia deixar a família no Algarve e fazer tratamento no Porto.
Claro que eu pensei que sim, nâo havia forma de ele ficar longe de nós durante aqueles que seriam os piores meses da sua vida. Hoje, acho, aliás hoje sei, que deve ter sido a pior decisão que tomámos. Talvez (vai haver sempre uma vida de talvezes), talvez de ele tivesse passado três meses em tratamento no Porto, mesmo que sozinho, tivesse durado mais do que seis. Talvez sim, ou talvez não. Sim. Foram seis meses, desde a descoberta, até ao funeral, sensivelmente. Talvez ter ficado perto fora o melhor a fazer. Confortável, em casa, com a família.
Mas sabe-se que o Hospital de Faro (que eu não posso deixar de culpar pela fatalidade) está muito pouco preparado para tratar doentes com Cancro. O Hospital de Faro está mais na onda de “dar um conforto final, aos doentes terminais de Cancro”. E o cancro não tem sempre de ser uma doença terminal, desde que descoberta a tempo e tratada como tal. Talvez não tívessemos nós descoberto a tempo. São coisas como estas que eu sei que nunca vou obter resposta. Porque a situação por que passei era aquela. As coisas foram descobertas naquele tempo, tratadas daquela forma, feitas assim. E o resultado foi aquele. E não há muito mais que pudessemos fazer na altura. Hoje, faria muita coisa diferente. Mas hoje tenho cinco anos a mais. Na altura esses cinco anos a menos fizeram diferença. A mim, a ele, a nós todos.
Enfim, como disse, foram seis meses. Seis meses em que, grosso modo, ele não fez muito mais do que consultas e quimios. E radioterapias que o deixavam KO. Porque esses tratamentos não são dose-fácil. Doem, aleijam, deixam marcas físicas, psicológias e dores irreparáveis. Mas ele continuou sempre a trabalhar, a sorrir, a passear, a chatear-se, a ser positivo. E isso, levou-nos a crer que a fase ia passar. E passava, e melhorava e haviam mais dias de sol do que dias em que ele acordava para vomitar, dias em que ele nem se levantava da cama. Dizem que depois da tempestade vem a bonança, mas nem sempre é assim. Depois da chuva míudinha vem a trovoada. E o tempo piora. E piorou. Quando as sessões começaram a ser mais agressivas, também ele. A luta ficava pior e, batalha após batalha, o humor piorava, o corpo fraquejava e eu lembro-me de pensar que aquela pessoa, deitada naquela cama, drogada com morfina e comprimidos para as dores, não era o meu pai. O grande C estava, a passos largos, a tirar os bocadinhos de vida que ele me dera, que ele tinha. Enfraquecia o seu corpo, retirou-lhe a voz, a vontade de sair da cama, a paciência para ouvir as nossas histórias da escola, a paciência para ler a National Geographic, ou ver Friends comigo depois do jantar. Até porque já nem havia jantar. O C tirou-lhe o apetite. Meses depois, tirou-lhe a vida. Eu era nova, inconsciente e ingénua e, havia dias, em que eu não aceitava que não havia vontade da parte dele, para nós. Não havia paciência, e discutia. E discutia com a minha mãe porque a comida não estava ao gosto dele, discutia connosco porque nós queríamos atenção, discutia com a reguila porque ela estava sentada na passagem até à casa de banho, e ele não podia ir vomitar. Mas hoje sei que, talvez, algumas dessas vezes, em que estávamos demasiado ocupadas a sentir raiva porque ele não era o Zé meio-quilo de sempre, não havia ninguém que pensasse o que o cancro lhe retirou dele mesmo. Se calhar, poucas vezes alguém pensou de que forma isso lhe afetava a ele. Que talvez (ou de certeza) ele se sentia irritado porque ele não era o José de Oliveira, que acordava todos os dias para tomar o pequeno-almoço com as filhas, que ia trabalhar, que nos levava a passear.
Foi egoísmo inconsciente da nossa parte. Porque se a nós nos faltava a figura paternal com que tínhamos sido habituadas a viver por dezassete anos (e, com a Diana, dezoito), a ele faltava-lhe a vida inteira. E ele apercebia-se cada vez mais de que essa vida não ia voltar. Foi egoísmo insconsciente, porque eu sempre acreditei que íamos dar a volta por cima e que ele ia voltar a ser quem era. E pensava “se tudo isto vai passar, não podes ser esta pessoa tão sem vontade para nada”. Mas depois a voz foi-se e as coisas tornaram-se mais difíceis. E, depois da voz ir, o médico diz que tem de haver uma preparação da parte da família, porque daí para a frente, não melhora. E eu lembro-me de pensar que pessoa cruel ele era. Quem diz a uma mãe, com duas filhas adolescentes, sem mais ninguém no mundo, que o pilar vai ruir? Que a mesa vai ficar com menos uma perna!? Que vamos acabar por ter de viver com menos um membro, amputadas?! Não é possível conceber essa ideia na mente de duas míudas que sempre o tiveram presente.
Hoje, ao escrever isto, mesmo que já tenha escrito durante cinco anos frações do que aconteceu, ainda me é extremamente difícil acreditar, confesso. Porque reviver estes seis meses é doloroso. Viver sem pai é uma realidade, agora. Mas reviver os momentos em que tive de me preparar para tal, é pior. Porque, afinal, nunca estive preparada. Nunca fiquei completamente ciente de que ia viver o resto da minha vida sem ele. Sempre, até ao final, até ao dia 18 de Novembro de 2009, nunca me passou pela cabeça que ele não me iria ver a acabar o secundário, nunca me ia ver entrar na faculdade, nunca me ia dar a mão se um dia me casasse, nunca ia ver o sobrinho lindo que eu tenho, nunca me ia levar a sair à noite, nunca mais me ia acompanhar na vida.

18 de Novembro de 2009 – o final
É um dia de que tenho muitas e poucas memórias. Não gosto de lembrar, mas sei que nunca vou querer esquecer. É uma parte muito grande de mim.
Dezoito de Novembro é o dia de aniversário daquela que foi uma das minhas maiores amigas. Estava feliz, íamos festejar e íamos apresentar um projeto importante na escola. Acordei, despachei-me e o dia estava nublado. Não houveram pensamentos mórbidos naquela manhã. Só os de ir para a escola, e não me esquecer de levar a prenda da Marlene.
(É bom recordar e escrever, que eu fui egoísta. Porque, nas últimas semanas, em que o Cancro lhe comera o corpo, o deixara magro, débil, amarelo, fraco… em que as únicas coisas que o faziam levantar-se da cama era ir vomitar ou pedir mais morfina, eu evitava ao máximo o encontro com ele. Reitero que aquela não era a pessoa que deu metade do seu ADN, aquele não era o homem com quem eu vivera 17 anos. E, na minha cabeça de menina do papá, aos dezassete anos, aquilo ia passar, ele ia voltar e, eu não precisava de lidar com aquilo tudo. BURRA. Mal sabia eu que, as últimas horas em que o ia ver, eu o evitei. Evitei encontros na nossa própria casa, evitei chamadas ao quarto, evitei beijos de boa noite. Se eu ia, na minha conceção, ter a vida toda para os dar, porquê sujeitar-me a vê-lo assim?! Mas devia tê-lo feito. E só eu sei o que isso me custa hoje. O que isso me vai custar para o resto da minha vida. O peso que isso me faz nas costas. O nó na garganta que aperta, a cada palavra que escrevo…)
Lembro-me que saí de casa nesse dia dezoito sem um beijinho de bom dia. À pressa, um “até logo” pela porta do quarto e saí. Mas quando saí reparei que me tinha esquecido da prenda da Marlene. Que era a coisa mais importante do meu dia. E voltei atrás para a buscar. Mas, nesse retrocesso, não fiz o que devia ter feito: não entrei no quarto, não o beijei, não abraçei, não disse até logo. E nunca mais o vi.
(…)
Quando, às quatro e pouco recebo uma mensagem da minha irmã que dizia para ir para casa pensei “não quero ir”. Quero ficar na escola. Quero estar com as minhas amigas. Mas, no fundo eu sabia. Elas também sabiam. Toda a gente à minha volta devia saber. E, com insistência, eu fui. Foi a viagem mais longa que eu fiz na minha vida. E foram dez minutos num carro em que o ambiente estava mais pesado do que depois do lançamento de Hiroshima. Mas ninguém me dizia nada, e eu só precisava que mo tivessem dito antes de chegar a casa.
A minha mãe, que nunca chora, estava a chorar. A mãe da Raquel estava a chorar. A Raquel tinha chorado, e a Diana tinha os olhos inchados. A Reguila estava parada na entrada, deitada, pesarosa, e eu sabia. E eu ouvi, da boca da minha mãe, que ele tinha morrido.
Não vou usar a palavra falecer, porque morrer é mais forte. E a morte é forte, a morte é dura. E eu nunca havia lidado com a morte assim. E foi o que aconteceu. Ele morreu. O meu pai tinha morrido, a casa estava vazia. Mas eu não acreditei, eu não chorei.
É engraçado, como nós pensamos sempre que, quando um dia tivermos de lidar com a morte na primeira pessoa, vamos chorar. Como passamos a vida a pensar que quando um pai ou uma mãe nossa morrer, vamos cair no chão, qual filme de Hollywood, e chorar baba e ranho e ficar sem respiração. Mas não. A verdade é que eu fui para o quarto, mas não chorei. Lembro-me que mandei mensagem à Dirce e à Joana Barbosa. E depois à Marlene. E ela ligou-me imediatamente. No dia de anos dela, o pai da melhor amiga, por quem ela tinha enorme aprezo, morreu. E, foi naquele momento em que atendi o telémovel, em que ouvi do outro lado a Marlene a desmanchar-se a chorar, que eu quebrei. Engraçado… ver a minha família do lado de fora a lidar com aquela dor não me fizera chorar, mas ouvir a Marlene cair, abriu-me o coração.
A partir daí, foi uma espiral. Não conseguia parar. De olhos inchados e coração no estômago, recebi-as em minha casa. Mas ninguém falou. E lembro-me só de pensar que alguém tinha de levar o meu trabalho de história no dia seguinte, que eu não podia.
Foi a uma quarta-feira.
O funeral foi sábado. E todos os dias até aí, eu não me recordo do que aconteceu. É um nevoeiro de memórias que eu escolhi não lembrar. Gostava, mas não me lembro.
Lembro-me do sábado, de acordar e pensar no que ia vestir. Porque eu sempre fui contra o preto nos funerais, ele sempre fora contra o luto. Mas, por respeito à minha mãe, fui de preto.
Não estava presente, não estava lá. Toda a gente estava lá. Os irmãos do meu pai, as irmãs, os amigos, os colegas de trabalho, as minhas colegas da escola, ramos de flores dos professores… mas não estava quem eu mais queria. Estava, mas dentro de uma urna de madeira, bem vestido, limpo, com um ar sereno. Eu fui ver, eu quis ver. Afinal, era a última vez que o ia ver. Mas não o devia ter feito. Aquela não é a imagem que queremos ter para a nossa memória. Infelizmente, eu ainda me lembro. Eu pensei que aquele não era o meu pai. A pessoa, a vida, aquelas vinte e uma gramas de qualquer coisa que temos dentro de nós e que perdemos quando morremos não estávam lá. E essas vinte e uma gramas, talvez o peso da vida, faziam a diferença toda. Aquelas vinte e uma gramas eram o peso de cinquenta e quatro anos de vida, dezassete dos quais acrescido com o peso da minha vida na dele.

(…)

Hoje, quando penso sobre isso, quando falo sobre isso, quando reflito sobre isso, há sempre uma sensação de angústia que, como referi acima, me deixa muitas vezes com a sensação de que as coisas não foram bem feitas. Talvez da minha parte, talvez da parte dos médicos, talvez da parte dele. Mas nada disso interessa agora. Porque agora, quase cinco anos depois, eu tenho de aprender a viver sem a palavra pai. Uso-a para me referir ao dos outros, ao meu cunhado, a uma panóplia de pessoas, menos para mim. Eu nunca mais irei dizer “o meu pai” sem ser em recurso a memórias. O mau pai foi, o meu pai fazia, o meu pai dizia… sempre no pretérito perfeito. Nunca mais direi “o meu pai vai me dizer, fazer, levar”…
É uma aprendizagem constante. E é, até ao final da vida, uma sensação de inveja, ainda que saudável e ainda que doentia de todas as outras pessoas no mundo que ainda têm os pais. Que ainda podem dizer “o meu pai não me deixa fazer isto, o meu pai é o maior, o meu pai é o pior…”
O meu pai não era o maior, nem era o pior. Era o meu pai e não podia ter pedido melhor. Foi, e ainda é, quem mais me ensinou na vida. Só queria que ele pudesse ter ensinado mais e melhor. De acordo com quem eu sou hoje. Só queria que ele tivesse podido ver a minha irmã a dar à luz o bebé mais bonito que eu já vi. Mas não pôde. E, dou por mim a pensar que, talvez, se ele ainda cá estivesse, ela não teria tido esta criança já, eu não tivesse entrado para a faculdade, muita coisa não tivesse acontecido… Gostava de pensar mais vezes que tudo acontece por uma razão e que a vida nos dá os ingredientes necessários para crescermos mais como pessoas. Mas depois, o meu lado de menina egoísta de dezassete anos vem ao de cima e pensa que eu trocava todas estas coisas da minha vida, por mais uma vez com ele. Voltar ao dezoito de novembro de dois mil e nove e ir ao quarto dar-lhe um abraço e dizer o quanto gosto dele, o quanto ele foi importante para mim, o quanto ele me ia fazer falta nos anos vindouros da minha vida. Por alguma coisa, não podemos voltar atrás no tempo, e temos de viver com as consequências das nossas escolhas. Mas gostava de, na altura, saber o que sei hoje, e que aquela minha decisão de ignorar deliberadamente aquela pessoa que ia perdendo gramas de qualquer coisa à medida que os dias passavam, me ia pesar para o resto da vida. Mas, como disse, são escolhas e tenho de viver com elas até ao final da vida. E, com o passar do tempo, as coisas atenuam.
Eu pensava, e ao ler textos de há anos atrás, dizia que isto nunca ia passar. E, de facto não passa. Não há um dia em que não me lembre dele. Mas, agora, lembro-me pelas coisas boas. Lembro-me quando ouço Billy Joel e lembro-me daquela noite em que ele comprou o CD do The Best Of e ficámos duas horas a ouvi-lo na carrinha. Lembro-me quando fui ao concerto dos Vaya con Dios e a Klein passou What’s a Woman e Puerto Rico, e eu pensei o quão ele ia adorar estar lá comigo. Lembro-me quando olho para o Lourenço e ele tem aqueles olhos verdes, cheios de vinte e uma gramas de qualquer coisa que o meio-quilo deixou para trás. Lembro-me de cada vez que a Diana conduz o Fiat Panda, que ele demorou anos a conseguir encontrar. Lembro-me quando vejo fotografias de Marrocos e penso nos quilómetros que andámos, nesse mesmo Fiat Panda, durante um mês, por entre as cordilheiras do Atlas. Lembro-me cada vez que, depois do banho, me visto e vejo a sua assinatura tatuada no meu peito. Ou o 18 de Novembro no meu pulso. Lembro-me e, mesmo que chore muitas vezes, sorrio outras tantas.
Passaram cinco anos, e vão passar décadas e décadas e eu não vou esquecer. Porque há memórias que nem escrevendo mil páginas sou capaz de traduzir. Há coisas que eu guardo, quer boas, quer más, mas que fazem parte da minha história. E, cada vez mais, eu fico feliz por tê-lo tido na minha vida por dezassete anos. É mais do que muitas pessoas. E por tê-lo tido a ele. Porque ninguém na vida se compara ao que ele foi. Na plenitude das suas virtudes e dos seus defeitos. E, a menos de um mês daquele que seria o seu 59º aniversário, eu continuo a achar que, mesmo não estando presente, ele nos deixou tantas coisas boas, que aqueles seis meses de coisas más nunca irão apagar.
Talvez não tenha conseguido transpor tudo para este texto. Eu queria, mas há muita coisa que me falta. Mas viver com esta perda é crescer e, mesmo que de tempos a tempos eu prefira voltar a ter treze anos de novo, brincar nas praias, passear e ver Disney Kids de manhã, enquanto bebemos café com leite, sei que, mesmo não acreditando na vida depois da morte, aquelas vinte e uma gramas estão agora em mim. E tudo o que eu faço tem o peso dessa coisa qualquer que ele deixou. Deixou em mim, deixou na Diana, deixou na mãe, deixou no Lourenço e, até, na Reguila.
De tudo o que me causa mais confusão é que, dessas vinte e uma gramas, apenas dez e meia foram para a minha mãe. Porque o que eu perdi, e que vou ter uma vida pela frente para viver sem mas sempre com oportunidades de construir de novo, ela perdeu. E perdeu o homem da vida dela, e perdeu o pai das filhas e perdeu as quarenta e duas gramas de vida em comum. E um bocadinho delas não as recupera de novo.
Já frisei tantas vezes quantas me é possível que nós nascemos mais ou menos programados para perder um pai, uma mãe… mas nunca se está preparado para perder um companheiro, a viuvez nunca faz parte dos nossos planos aos quarenta e poucos anos. E é essa projeção de vida em conjunto, que se cria e que acaba no momento em que metade das nossas gramas de alma, ou do que quer que seja, partem. Ficam em memórias, ficam em vida, ficam em filhos e netos, mas não ficam no final do dia, na cama, no adormecer e no acordar. Não ficam no partilhar alegrias e tristezas. E era só essa dor que eu queria apagar. Mais do que a minha, mais do que a da minha irmã, mais do que todas as dores do mundo, a de ela ter perdido o marido, o homem, o esposo, o pai das filhas. O futuro. Dez gramas e meia dele foram embora.

Cláudia Oliveira, 13/04/2014

 

 

(de muitas e várias músicas que acompanharam este texto, deixo aqui Cat Stevens, Father and Son.
https://www.youtube.com/watch?v=Q29YR5-t3gg)

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