Vamos falar de Poliamor – Mural da Liberdade SIC

Mural da Liberdade – Reportagem SIC

 

A sic começou há pouco tempo e em homenagem aos 40 anos do 25 de Abril, uma reportagem de seu título “mural da liberdade”, com a descrição “A liberdade tem vários rostos, lutas, razões e maneiras de se manifestar na sociedade”. Estas pequenas reportagens vão ocorrer ao longo do mês de Abril com o intuito de mostrar as histórias de oito pessoas diferentes, as suas lutas e o que é, para cada uma delas, ser-se livre, quarenta anos depois.

Eu, pessoalmente, já assisti a três dessas mini-reportagens: a dos poliamorosos, a da gender-bender e a de um agricultor. E vamos lá ver: gostaria de me debruçar sobre a matéria dos poliamorosos e dos genderbender.

Antes de mais, o que é isto do poliamor? Poliamor, como diz a palavra, é quando nós como amamos várias pessoas ao mesmo tempo. E isso é perfeitamente normal e aceitável. Podemos amar várias pessoas ao mesmo tempo, de várias formas, na mesma intensidade… Podemos amar quem quisermos, na altura que quisermos. Isso aqui é ponto assente e está fora de questão eu ir sequer escrutinar quem ama quem e quem tem o direito de amar seja quem for, na quantidade que for.

O senhor da entrevista, que deu a cara às câmeras e assumiu-se publicamente como poliamoroso, é professor universitário, em Lisboa, tem um ar alternativo e tem, neste momento quatro companheiras, vivendo em conjunto com duas delas. Atenção: ser poliamoroso não envolve nenhum secretismo para nenhuma das partes logo, todas as companheiras de Daniel Cardoso (o nome deste poliamoroso), sabem da situação. Até porque, ambas as quatro companheiras são também poliamorosas.

Daniel diz-se feminista e ativista. Diz que não existe nenhum desrespeito pelas companheiras, mas que existe discriminação por parte da sociedade. Olhares reprovadores e comentários, quando ele e as companheiras andam de mãos dadas no metro. Reprovação por parte dos familiares das mesmas, por aí fora. Ora, numa sociedade ainda um bocadinho arcaica como a nossa, em que ver dois homens ou duas mulheres de mãos dadas na rua é olhado de lado, ver um senhor com três mulheres nas mãos, é ainda mais reprovado. Pronto. Mas eu não estou aqui para dar a minha opinião em relação ao poliamor porque, como referi, cada qual sabe quem ama, e eu não sou ninguém para dar opinião sobre o número limite que alguém tem para amar. Eu, por exemplo, amo um lequezinho de pessoas mas, amorosamente, de forma romântica e sexual, amo apenas uma pessoa. Mas, como ser humano de mente aberta que sou, informada e consciente de que nem todos somos iguais e nem todos pensamos/agimos/vivemos da mesma forma, sei que há bastantes pessoas a amar mais que uma pessoa. A monogamia é um princípio meu, mas não é de muito boa gente. E ainda bem.

Depois temos a história de uma mulher(?) – aqui perdoem-me a interrogação, mas não consigo mesmo definir, até porque nem a mesma o faz -, que se diz gender-bender. Ou, como quem diz, aquela pessoa que nasceu mulher mas que a certa altura da vida decidiu que o género sexual que a natureza lhe deu não era aquele em que se sentia mais confortável. Mas que nem por isso tem de mudar. Pode ser o que quiser ser, sem operações de mudança de sexo, sem grandes coisas. Um corte de cabelo, uma tshirt à gajo à qual se alia a falta de soutien (mas que o peito permite, pelo tamanho) e umas calças largas. Na boa. Também gostei de ouvir a Paula Garcia dizer que não precisa de se definir e, que para si liberdade é poder-se ser. Ser-se nós próprios, é ser-se livre. Fazer o que gostamos, com quem gostamos.

Até aqui tudo bem. So far so good. Eu não me oponho mesmo ao facto das pessoas quererem ser quem são, livres! (Talvez a história do poliamor me faça mais confusão, porque acredito que o amor romântico deve ser devoto apenas a uma pessoa – pelo menos de cada vez – mas, como disse e reitero, somos pessoas diferentes e pensamos de forma diferente. Respeito isso).

Agora, o que eu queria mesmo frisar aqui é o seguinte: o que é que este tipo de liberdade, tem a ver com os quarenta anos do 25 de Abril? Atenção, e antes de me atirarem pedras e comentários menos bons: eu entendo! Entendo que estes sejam exemplos de pessoas que se estão a afirmar perante uma sociedade repressiva. Eu entendo a dificuldade que existe, em pleno século XXI, em afirmarmos as nossas diferenças: sejam elas de aparência, sejam elas de personalidade, sejam elas quais forem. Eu compreendo, todas as pessoas têm a minha simpatia e eu sou uma severa defensora de que todos devemos poder expressar as nossas diferenças e afirmar a nossa personalidade. Mas, o que eu quero fazer ver aqui é que este devia ser um mês, ou pelo menos uma reportagem sobre o 25 de Abril. Sobre a luta daqueles que seguraram as espingardas, que silenciaram o fascismo, que conseguiram que, hoje, fôssemos um povo diferente ou, pelo menos, que reuníssemos mais condições para tal.

Estes deviam ser os principais atores da história. Sim, somos bombardeados com homenagens, quarenta anos depois, das mesmas personagens. Mas foram essas personagens que nos permitiram aqui estar.

Sim, estas reportagens querem-nos mostrar que quarenta anos depois, a luta deu frutos e temos mais liberdade. Sim, mas eu não consigo encaixar a indefinição de sexo ou a poligamia do amor na luta que o vinte e cinco de abril de mil novecentos e setenta e quatro foi.

Acho que a SIC confundiu aqui um bocadinho as pontas. Esta reportagem está ótima, pelo que vi mas poderia ser feita sob outro tema. Não me refiro a liberdade, em si, pois acho que esse tema é ótimo, mas na liberdade pós 25 de Abri. Isto é a nossa história, a história do nosso país. É aquilo que os nossos avós, os nossos pais, professores e senhores do banco de jardim ainda lembram. Ainda contam, ainda falam, ainda ressentem. É um pedaço de Portugal e não devia ser misturado com novas tendências sociais (ou a afirmação de uma tendência já descoberta, mas que ainda está no armário).

Eu respeito e tenho enorme admiração por quem se levanta e mostra que ser diferente também é ser! Aplaudo isso. Agora, não acho que isso tenha a ver com quem se levantou e mudou o rumo do país. Porque afirmarmos a nossa pessoa individual como diferente, só muda a perceção do outro sobre nós e, talvez com um pouco de persistência, mudará a forma como o outro vê quem, como nós, luta contra o preconceito. Mas os capitães de Abril mudaram mais que isso. Mudaram o país. E isso é algo que não é leviano.

Nada disto é leviano.

Mas é respeitável e louvável. Só não devia ser “misturável”.

 

XOXO. C

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