Moro em ti, Lisboa.

Faz amanhã um mês que eu pertenço a Lisboa (dentro dos possíveis que alguém possa pertencer a alguma coisa).
Faz um mês que estas ruas me fascinam, que piso esta calçada todos os dias, vejo almas apressadas no metro, enquanto leio o meu livro.
Lisboa é linda, Lisboa é mulata. Como diz Luiz Caracol, é “flor do Lis, do Lírio”.
Cheia de cor e de pretos-e-brancos. Cheia de cheiros que lhe são caraterísticos e que dão nomes a músicas. Cheia de alma, cheia de soul.
Mas eu não lhe pertenço totalmente. Eu não pertenço a lado nenhum, na verdade. Aqui e ali me acho, me entrego e namoro, longamente, com os sítios por onde passo. Sou uma turista na cidade e ver esta cidade por esses olhos é das coisas mais bonitas. Passo aqui, paro ali, fotografo isto, cheiro aquilo. Sorrio, continuo, paro e fotografo mais.
Desde pequenina que eu sou de todo o lado e de lado nenhum. Desde que me lembro, sair sempre foi parte intrínseca das minhas chegadas: nunca era definitivo e, por muito que em criança me custasse, tarde aprendi que sair é das melhores coisas, depois de chegar.
Nasci em Espinho (que será sempre o meu berço, com cheiro a barcos piscatórios e a sal, o doce cheiro do salgado, na casa da minha avó), depois mudei-me para Almancil –> Sintra –> Montenegro –> Almancil –> Almancil (sítios diferentes) e, agora, Faro (saí da casa da minha mãe para viver sozinha).
Lisboa não é nova para mim, nos termos em que já cá tinha vindo visitar, ver, conhecer. Mas esta Lisboa mulata, a dos cafés, das caminhadas, do frenesim, do levantar cedo e do deitar tarde, é nova. Esta Lisboa a que chamo casa, neste último mês, esta Lisboa onde trabalho, onde estagio, onde namoro, onde passeio, onde mato saudades da beleza.
Cidadã do mundo assumida, gosto de não pertencer a lado nenhum e, ainda assim, dizer-me de todo o lado. Este romance prolongado com a cidade das sete colinas é um dos melhores que eu já vivi.
Mas, confesso, que sinto às vezes falta da quietude do meu Algarve. Das ruas calmas, da estranheza familiar das pessoas, do sol, das gaivotas, das praias, do familiar.
Em Lisboa há muita gente, há muita pressa. Há muita gente com muita pressa. Há pouco tempo para apreciar a beleza dos edifícios, pouco tempo para parar e sentar num banco de jardim a ler um livro, ou um jornal. O cigarro e o café são à pressa e sem gosto. Há toda uma forma de vida muito rápida, muito despegada do Natural. Há trânsito e filas para os autocarros. Uma corrida desenfreada para apanhar o 27 ou o metro. Muda-se muito de linhas e fala-se muito de trabalho. E, depois, há muita gente na rua e da rua. Talvez por ser maior, talvez por ter mais gente, tem mais ruas povoadas por aqueles que fazem dela a sua casa. E muita gente que fala sozinha e com os pedantes.
Eu temo soar um bocadinho pacóvia e tal qual menina que vem da terrinha mas a verdade é que lá em baixo (ou como quem diz, na terra das mourarias, o meu Algarve) não há tantos maluquinhos (com todo o respeito aos mesmos. Eu também aprecio falar comigo mesma). Ou pelo menos são mais disfarçados e, os que há, a gente já os conhece a todos, e tratamo-los por tu (até pareço uma algarvia de gema a falar… a gente… onde isto já chegou).
Mas ainda assim e apesar de todos os malucos nas esquinas, do frenesim, dos encontrões nos autocarros e das correrias nas escadas do metro; apesar do cigarro rápido e do cafézinho sem gosto, Lisboa conquistou-me e continua a conquistar-me dia-após-dia. Aquela áurea de Fado, em que Amália parece tocar em cada esquina, aquele mix de várias pessoas, de várias diferenças, de pessoas pretas e brancas, de mulatices, de ruas e ruinhas, de escadas e grafites nas paredes. Estilos diferentes mas iguais. Os nichos e os poemas de rua. O samba do bairro, o pastel de Belém e a arte sem nome.
Toda esta Lisboa Portuguesa que cheira bem (cheira a si mesma) me conquistou. E estou muito feliz com este mês e estou muito feliz com este namoro. Com este amor e esta paixão mútua. Porque eu acolhi Lisboa no meu coração e ela acolheu-me a mim no seu seio. Não sinto rejeição. A cada esquina que passo, sinto que ela me quer aqui. Sinto que ela me chama para mais meses de namoro demorado. Sinto que ela quer que eu a fotografe, que eu a oiça. Que eu pare, me sente num dos seus bancos com vista para o rio ou na relva verde de um jardim e a escute. E leia nela. E respeite o seu seio de metrópole (uma das mais bonitas da Europa). E respeite a sua natureza apressada e me demore nela. E me perca nos labirintos das suas ruas cravadas de arte urbana.
Lisboa aceita o meu estatuto de cidadã de todo o lado e de lado nenhum. E ambas sabemos que este romance tem data de expiração. Mas o meu coração já é teu, hoje e sempre. E, mesmo quando fisicamente não pertencemos a lado nenhum, se o nosso coração é dono de algo vai sempre levar esse algo consigo. Eu levo no meu coração todos os sítios por onde passo/passei. Tenho o coração cheio e o livro de memórias carregado. Como dizia E. E. Cummings (e eu gosto tanto, que tatuei)

“i carry your heart with me(i carry it in
my heart)i am never without it(anywhere
i go you go,my dear”

Por isso, hoje sou tua. Dedico-me a ti, rego-te o ego cidade minha. E minha tu és, hoje e sempre. Somos uma da outra. Citando a sábia raposa de Antoine de Saint-Exupéry, em O Principezinho,

“Mas, se tu me cativares, passaremos a precisar um do outro. Passarás a ser único no mundo para mim. E, para ti, eu também passarei a ser única no mundo…”

E tu, bela cidade, cativaste-me. Eu fui cativada e agora, preciso de ti. És única para mim no Mundo e eu carrego-te no meu peito. Daqui para a frente somos uma só. Fazes parte da minha história e sou, agora, história tua. Com muito gosto.

Xoxo, C.
16.Abril.2014

Banda sonora do Post: Moro em ti (Lisboa) (http://www.youtube.com/watch?v=GvcH3NKEXVo)

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