Frágil (esta noite estou tão frágil)

Morreu Gabriel García Márquez. É com esta notícia que eu recebo o meu anoitecer. Mal abri o instagram, soube-o. Soube-o e senti pesar. Porque as pessoas boas, que nos deixam algo partem sempre. Mas depois pensei que este estava em sofrimento, e terá sido melhor assim. Não vou fazer disto um post-mortem. É uma mini-mini homenagem. Assim pequenina e cheia de sentimento. Como eu. Pequenina e concentrada, como a lima.

Ora por falar em coisinhas pequeninas e concentradas e cheias de emoção à flor de si mesmas… Estou desgostosa. Então  não é que o meu bichinho preferido me deixou e foi para o Algarve? Verdade, os papéis invertem-se e sou eu, que me encontro só em Lisboa, e ele na terra do Sol, do Sal e das estrelas-do-mar. E eu fiquei aqui sozinha, com as gatinhas a fazerem-me companhia felpuda e na forma de um roçar de pernas. Sozinha e assediada, portanto. 

Mas o meu ponto g deste post é mesmo que eu estou sozinha. Leia-se que nós, desde que começámos esta coisa bonita a que alguns chamam namoro, mas que eu prefiro chamar de Vida, que sabemos que é mais-ou-menos três semanas por mês cada um para o seu lado. Eu no lado doirado do Algarve e ele no lado poético de Lisboa. Isso sempre foi preto no branco. Mas depois eu vim e ficámos mais do que o habitual. Mais tempo. E é aí que eu piso a poça: habituo-me ao bom do cheiro, ao arrepio do toque, à irritação do desarrumo, o miar do ressonar. E habituo-me ao quente dos lençóis, às pernas enroscadas, o hálito matutino doce. Fico mal habituada e depois quando, mesmo que por pouco tempo, mo tiram eu fico assim, frágil como um Jorge Palma sem whisky.

Hoje, então, estou particularmente lamechas e não gosto de mim assim. Então eu que sempre gostei do vazio de dormir sozinha e espreguiçar-me para os mil cantos da cama, estou aqui a lamentar-me porque não tenho quem me tire a manta durante a noite? Ai ai, Cláudia, não tens remédio.

Mas isto tudo tem uma explicação e essa é simples: ora estou a ficar saudosista. Eu sempre o fui e sempre gostei de sê-lo. É algo muito meu, muito nosso, Portugueses. É muito poético, ser-se saudosista. É muito Pessoano e eu adoro Pessoa. E eu, que apesar de saudosista nas palavras e no coração, sempre com saudade de lugares, de experiências, de memórias, podia-me gabar ser pouco saudosista com as pessoas. Isso era coisa que “não me assistia”. Mas agora assiste. Este ano que passou, mudou muita coisa na minha vida. E comecei a dar mais valor às pessoas que me escolheram para fazer parte da vida delas. As outras que demonstraram que eu era dispensável, foram empurradas pelo autoclismo. Agora esses que me acolheram como deles mesmos, esses que, nascendo no meu seio, conseguiram ver-me para lá de mim mesma, esses eu prezo. E depois, torno-me saudosista de todos eles. 

O meu bom Algarve, cravado de coisas minhas, tem esta noite, o meu coração.

O belo do meu pequenino sobrinho, aquele serzinho minúsculo, que um dia coube na palma das minhas duas mãos e que hoje me dá dor de costas e de cabeça, é a melhor parte de mim. É daquelas coisas que se escrevem mas que não se explicam, esta coisa de ser-se tia. Ele não é meu mas pertence-me desde o primeiro minuto de vida. Posso-me gabar, e gabo, que fui das primeiras pessoas a vê-lo. Aquela coisa tão linda, tão bem formada e ainda enrugada do sair do ventre e que eu vi a mamar pela primeira vez. Independentemente do que ele faça, é sempre o meu macaquinho. Quer chore, quer esperneie, quer me enfie os dedinhos roliços nos olhos, quer me bolse em cima. É tudo parte do amor, é tudo aceitável. E eu morro de saudades profundas e sinceras dele, que está a crescer a passos largos, longe de mim. E, sempre que o ouço ao telémovel, rebento de emoção à espera que ele diga “tia”. Tua tia, tia tua.

Mas não é só do macaquinho, é do macaquinho, do meu bichinho panda lindo, esse meu amor-mais-que-tudo-homem-da-minha-vida. Chatice da minha irmã e das insistências da minha mãe.

Dos copos de vinho e cigarros com a Cátia, das conversas até mais não e das Bey-danças na varanda do meu quarto. Tenho saudades dos rituais, das pequenas grandes coisinhas que me faziam e sempre farão feliz. Da comidinha da mamã e do conforto do bebé-mamão.

Mas isto vai passar quando ele chegar. Porque ele me preenche de sol e de mar e de amor e de dor. E o vazio no peito da saudade desaparece. E o peito enche e dilata e transborda e continua a jorrar amor. E é aquela coisa que ninguém substitui porque é o mais intenso. Cada pedacinho meu junta-se de novo, une-se aos dele e eu fico bem, de novo.

É só esta noite, e a próxima e a outra. E depois ele encosta-se a mim e eu fico bem. 

 

xoxo, C.

 

(música que acompanhou o post e que eu lhe dedico, como o meu coração: http://videos.sapo.pt/aYwVu7vnju582LdBhLlE)

Advertisements

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s