Crianças de Loiça (e pais que tratam os filhos por você)

Uma coisa que eu acho muito engraçada, e que eu vejo bastante aqui em Lisboa, é o pessoal a tratar-se por você. Primeiro, isto aqui está minado de betinhos e Kiquinhas e Matildes e Bernardos. Com os seus cabelos loiros, assim corte à “fodasse” e todos com ares muito limpinhos, polos da Lacoste e com as suas calças caqui impecavelmente engomadas. Claro está, que eu estou aqui a criar um estereotipo fatal: os Kikos e as betinhas de Cascais. Mas, mesmo que os meninos das mamãs hoje em dia não usem tanto o sapatinho à vela ou não sejam tão betos (alguns até já dizem palavrões, ou bebem uma vodca com redbull de vez em quando, nas suas festas betinhas), ainda existe uma coisa em comum nesses seres: os pais tratam-nos por você. Coisas do género “Ai Fransisco, então mas o menino não sabe que a mamã hoje não lhe pode emprestar o Audi?” ou “Madalena, a menina vai sair com as suas amigas mas veja lá como se comporta! Não beba, está bem menina?” Estes clichés linguísticos, que eu não sei para o que servem, irritam-me. Esta coisa de tratar um filho, que demorou nove meses dentro de nós, com o qual (por norma) criámos um laço para a vida, por você é assim muito arcaico. Esta coisa nada tem a ver com respeito. Respeito é outra coisa. Eu respeitava o meu pai e respeito a minha mãe e nunca os tratei por você. Muito menos a minha irmã. “O Diana então você não acha que o Lourenço está demasiado magro?”. Riu-me de pensar, sequer, um dia tratar o Lou por você “Ai Lourenço, não seja macaco! Bebé porco, você é um porco!” – eu dou-lhe dois tau taus na mãozinha.

Uma coisa era eu tratar a minha avó por você. Tratava-a porque ela não tinha a minha idade nem nada parecido. Assim era respeito e eu entendo. O meu pai tratava a minha avó por você, mas eram outros tempos. Eu não vou tratar a senhora minha mãe por você. Assim como não a trato por Maria. O nome dela é Mãe. E será mãe. E ele será Pai. Para nós, são esses os nomes próprios dos progenitores.

Verdade é, respeito quem trata os seus próximos por você, é lá com eles. Mas não deixa de me fazer rir. Hoje uma colega minha do trabalho disse que chegou a conhecer um casal, de certa idade mas nem assim tanta (seus quarentas e muitos, cinquentas), em que a esposa tratava o esposo por “Senhor Doutor”. “O senhor doutor vai querer fatura?”, por aí…. E depois eu não consigo evitar imaginar os momentos na intimidade, e as conversas entre quatro paredes. “Ai senhor doutor, o que vai querer de sobremesa?” “Senhor Doutor, estou muito excitada! Venha tocar-me”. “Ai senhor doutor não faça isto”, “O senhor doutor faz o amor muito bem”, “Senhor doutor, meta mais um dedo” (peço desculpa pelo explícito, mas é mesmo assim que eu os vejo a dizer). 

É que estas coisas são um corte na intimidade que não é pera doce. Penso eu, se calhar eles conseguem dar um jeito na coisa.

E depois é o que se vê e eu confesso que nunca sei como reagir perante essas situações, quando a criancinha pré-beta me pergunta alguma coisa e eu penso “merda e agora? trato por tu ou você”. E, mal-criada que sou (mas muito bem educada), trato o puto por tu. As crianças não são cães de loiça. Um bocadinho de rudez não faz mal a ninguém. Ainda não vi ninguém crescer com traumas porque, quando tinham sete anos, uma cashier simpática os tratou por tu. Quando forem reis de um qualquer castelo no Restelo ou ali em Cascais, logo veremos se me apetece tratar por você. Suas excelências de coisa nenhuma.

É que estas atitudes ensinam desde cedo as crianças que são coisas mais importantes do que realmente são. Eu adoro crianças (q.b), mas admito que são todas umas amostras de uma coisa qualquer que virão a ser. As crianças são o futuro. Então não vamos por na cabecinha do nosso futuro que temos de nos tratar por você. Pelo menos entre família. Porque no outro dia, ao assistir duas irmãs da minha idade e da Diana a tratarem-se por você… Entendem?
É uma coisa muito estranha, na minha conceção de menina nascida no bairro piscatório de Espinho, em que éramos todos vizinhos e a outra entrava na casa da avó e toda a gente conhecia as filhas do Zé Meio-Quilo, dez anos depois de sair de lá. Eu que sempre brinquei no monte de terra com a minha irmã e os meus gémeos. Eu que sempre sujei as mãos de barro e adotava gatos doentes da rua.

Porque hoje em dia os pais são super-protetivos dos filhos. E acho bem que se proteja aquilo que é nosso. Mas proteger não é restringir. Hoje em dia não há puto que brinque na rua – é demasiado perigoso. Subir a uma árvore é coisa de macaquinho e muito fora das normas ditadas por uma sociedade cheia de Carolinas Patrocínios e coisas equivalentes.

Deixem a criança cair e chorar. Deixem a criança tocar no cão que passa na rua, deixem o míudo correr no jardim. Nunca fez mal a ninguém. Essa super-proteção um dia mais tarde, só vai prejudicar. Não ajuda em nada na nossa autossuficiência em adultos.

Mas cada um ensina os seus meninos de oiro como quiser. E depois cada um se desenvolve como ser humano, muito baseado nessa forma como os papás deixaram ou não, a menina comer as papas com as mãos. 

Depois há a contradição que é engraçadota: os pais não deixam os seus rubis confraternizar com a menina que está ali a olhar para eles, ou não ensinam os filhos a partilhar as pipocas com os meninos no recreio. Mas depois, uma birra de dez minutos e gritos de decibéis acima do aceitável, na fila do supermercado, é coisa boa. Fingem que não ouvem, fingem que aquelas belugas não são sangue do seu sangue e continuam, feitos mortos-vivos, a empacotar as massas e os alfaces. E as curgetes. E as crias ali, a espernearem-se no chão, todos ranhosos e cheios de lágrimas que dá dó. Tudo porque querem um carrinho, ou uma Winx. E os papás-ursos (um bocadinho no sentido pejorativo, confesso) imunes àqueles gritos estrondosos. Dizer não ao menino é que não pode ser. Deixa-o chorar e incomodar as pessoas. Ignora. Dar uma palmada? Não! Isso é crime e não se pode magoar a criancita, coitada. E o betinho continua a guinchar, pior que um porco em dia de matança. Porque, hoje em dia, estes pais são muito demagogos. Não se diz não às criancinhas, não se explica que não se pode ter tudo. Não, deixa-se chorar, babar e espernear, e depois, no final, quando já toda a gente está muito farta, faz-se o que o menino planeou desde o início: cede-se e compra-se o brinquedo. Para contornar o escândalo da caixa de supermercado. E o efeito placebo no gaiato é imediato: parou de chorar. Rápido assim. Mal a coisa de plástico lhe foi cair às mãos. “Tome lá Gustavo, tome o brinquedo e não chateie a mãe, que a mãe hoje teve de tomar três xanax’s porque o menino faz muito barulho meu querido. Parece um macaco, você!”

 

Enfim. Cheios de Senhores e Senhoras andamos nós, por aí. Aqui mais do que lá, que lá no Sul só apanhamos destes artistas de circo no Verão ou perto dessa altura. E achamos sempre piada. “Olha aqueles”. Mas aqui eu não acho engraçado. Acho ridículo, isso sim. Mas, por norma, o pessoal nunca tem noção do ridículo.

 

Xoxo, C.

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