Ser Mulher: O direito ao (nosso) corpo

Devido a uma notícia que li ontem, da nova lei de maternidade de substituição e também de acordo com notícias que li há uns tempos atrás, sobre uma sondagem no Brasil que indicava que 65,1% dos homens achava que as mulheres que usavam roupas curtas e provocantes mereciam ser atacadas, pus-me a pensar. Mas afinal, quem é que decide o que fazer com o corpo de uma mulher? Quem é a entidade, ou a autoridade ou seja lá o que for, que decide o que deve e o que não deve ser feito ao corpo de uma mulher? Ninguém, além dela mesma, ora está. E este assunto tem pano para mangas e vem a propósito de muitas mais coisas.

Em relação à sondagem Brasileira, que mais tarde foi corrigida e que gerou ondas de indignação, os resultados que vieram a público, retificados, foram que, afinal, “apenas” 26% dos homens brasileiros concordam que as mulheres sejam abusadas tendo como base a roupa que usam, e 70% discordam. Depois da ocorrência deste erro, o diretor do Instituto pediu a sua exoneração – e muito bem. Agora, esses 65,1% não vieram do céu. Ou seja existe, de facto uns 65,1% de ignorantes, que acham alguma coisa (nem toda a gente deveria ter essa faculdade de poder “achar” coisas) e estes acham que as mulheres que continuam com os parceiros depois de serem agredidas, é porque “gostam de apanhar” (e, aqui, cito).

E isto é daquelas coisas que me revoltam e me provocam um remoinho interior. As coisas não podem ser tão preto no branco, ora vejamos lá. Nem sempre, reitero, nem sempre uma mulher continua ao lado de um homem que a agride porque queira continuar a apanhar. Há uma série de fatores que nos são alheios e que condicionam a sua decisão de sair e procurar ajuda. Porque toda essa violência física também se transforma em transtornos psicológicos. Mas é sempre bom que estas sondagens sejam feitas, para as pessoas terem a noção de como o Mundo anda.

São coisas horríveis e macabras como estas, para as quais eu não consigo achar explicação. Isso, as mutilações genitais de que as mulheres são alvo, em vários países africanos. Mas, desengane-se quem acha que em Portugal não acontece o mesmo: acontece! Bem aqui pertinho de nós. Afinal, estas monstruosidades não são só coisas de países de terceiro mundo. Esta é uma das mais graves violações dos direitos Humanos que pode existir, a mais sexista e repugnante. Este negar à mulher o direito a ser isso mesmo: mulher. A ter prazer.

Os dados são que, em todo o mundo, 40 milhões de mulheres, raparigas e crianças em todo o mundo são vítimas dessa prática nefasta e que 3 milhões estejam anualmente em risco de vir a sofrê-la.

E, o pior disto tudo, é que são práticas efetuadas por outras mulheres que, como tiveram de passar pelo mesmo, acham isso coisa normal. Especialmente em países africanos esta é uma prática cultural. Um ritual de passagem de Mulher a qualquer coisa aceite por essa comunidade. E não há condenações a este crime, porquê? Ora pelo secretismo em que é feito e que proteje infratores e infratoras das redes da justiça. Porque, de facto, há legislações que punem esta prática – não estivéssemos nós aqui a falar de uma violação dos Direitos Humanos -.

Para quem não sabe como se procede a uma mutilação genital, a ideia é mais ou menos esta: removem-se os órgãos genitais da mulher. Há vários tipos de remoção, com as suas várias formas de execução (que giro, variedade!). Portanto, remove-se o clítoris ou os lábios vaginais (imaginam a dor?) ou, alguns cosem os lábios vaginais e/com o clítoris, deixando apenas uma pequena abertura para a urina e a menstruação. Coisa horrorosa e macabra, não é? Em África esta última prática – chamada infibulação – é recorrente em 15% dos casos. Estas operações, se assim podemos chamar-lhes, ocorrem em diversas idades; desde que a criança nasce ou antes de atingir a idade adulta.

Outra coisa, são as condições em que estas “cirurgias” são feitas: a maior parte dos casos, em comunidade e sem a menor higiene e com objetos de corte não esterilizados, nem anestesiados, o que pode levar – e leva – à propagação das mais variadas doenças. Como se isto não bastasse, o pós é muito pior: sangramentos, hemorragias, dores horríveis e insuportáveis, infeções, abcessos entre outros, que na maioria das vezes levam à morte das pacientes. Quando não morrem, as vítimas ficam com infeções urinárias, impossibilidade de engravidar ou, sequer, ter relações sexuais. As que, na primeira prática, ainda podem engravidar, após o nascimento da criança voltam a ser cozidas, para aumentar o prazer do Homem.

E este pós-operatório, ou esta tortura, nunca desaparece. A vítima leva-a para a vida, em cada passo que dá, a cada relação sexual que tenha, vai sempre, sempre, ser doloroso.

Isto é feito, porque? Porque, como eu disse, nestas sociedades, apenas o Homem pode ter prazer. À mulher não é permitida tal coisa. Alguns acéfalos acreditam que melhora a fertilidade e diminui a promiscuidade das mulheres. Nem sei de deva comentar esta parte. É que isto é tão ridículo que eu me encontro, como acontece poucas vezes, sem palavras. Mas quem é a alma que acha que deve controlar se a mulher deve, ou não, ter prazer sexual?! O que é que a define mais ou menos promiscua?! Quais são as regras que ela tem de respeitar ou desrespeitar para que isso faça de si uma promiscua e lhe retire o direito natural ao prazer sexual e ao bem-estar?

Mas isto há um vastíssimo leque de abusos, ao sexo feminino que eu nem começo a enumerar, porque daria pano para mangas. Desde escravatura sexual, a repetidas violações em países como Iraque, e Arábia Saudita – que levam a maioria dessas mulheres ao desespero total, que resulta em suicídios -, passando por casamentos forçados (que não são coisa do século passado, como muita gente ainda crê), escravatura moderna, etc etc.

Isto são coisas que não vêm de hoje nem vão, de todo, acabar amanhã. Mas que nunca é desatual falar-se sobre o assunto.

O mais recente, é o assédio nos transportes públicos. Em metros, comboios e autocarros de cidades cada vez mais cheias e em que cada vez mais pessoas usam estes meios de transporte, é muito comum vermos – ou sentir-mos – um homem tirar partido dessa proximidade com a mulher. O que é repugnante.

O corpo feminino é, de facto, uma coisa bela e apelativa. Eu gosto de ver um corpo feminino e aprecio-o também de forma, muitas vezes, sexual. (Alguns gostam de chamar a isso bissexualidade. Eu não. Eu nunca gostei de rótulos e quem os quiser usar, é livre. Eu sempre assumi e sempre partilhei com quem partilha a minha vida que consigo, posso e já admirei a mulher em vários aspetos. Inclusive, ele sabe. Mas isso nada tem que ver para isto).

Então, o que é que me dá a mim – ou a alguém, entenda-se -, o direito de tocar/usar o corpo de uma mulher? Nada nos dá esse direito. Quer a mulher esteja de mini-saia, que revele muito, quer a mulher esteja de burca. Nada dá a ninguém o direito de abusar do corpo feminino. Seja em transportes públicos, seja em bares, discotecas, seja onde for.

Porque, vamos lá ver, as coisas para acontecerem têm de ser feitas com consentimento de ambas partes. Um homem não pode apenas usar o argumento de que “ela estava a provocar”. Seja pela roupa que vestia, ou pelas atitudes, se a mulher disser “NÃO”, é não. Não há cá ler-se nas entrelinhas de um balançar de ancas mais acentuado, ou de um olhar prolongado e promiscuo, como gostam de o rotular. A mulher pode balançar-se o quanto quiser e não querer que aquele homem, ou seja quem for, lhe toque.

E, claro está, há meninas a quem apetece dizer que “se estão mesmo a meter a jeito”, mas ainda assim, ainda assim, nada dá o direito de lhe tocarem. O homem tem faculdades mentais como outro qualquer ser-humano racional, de entender um não. Não é universal, porra! De saber que, se há uma recusa da parte da mulher, o melhor a fazer é NÃO insistir. E nunca achar que esta se está a fazer de difícil. Porque aí entramos no âmbito da violação e isso não é, de forma alguma, brincadeira.

Acho que este assunto está um pouco gasto, mas que todos nós gostamos de apontar o dedo, quando vemos alguma menina, num bar a beber, embriagada, a mostrar mais do que deve e a insinuar-se a toda a gente. Concordamos aqui que essa não é, de todo, uma atitude que mostre respeito pela sua pessoa. Mas a mulher pode desrespeitar-se sem que venha alguém desrespeitá-la. Ela pode dar-se ao ridículo mas, isso não dá o direito a um homem de a agarrar e fazer o que lhe convier. Nada dá esse direito a ninguém, a não ser que a mulher dê o seu consentimento.

Ontem vi o novo vídeo da série “Mural da Liberdade”, da Sic. E gostei, tenho a dizer. Este era sobre uma suicide girl, que como é praxe, usa o seu corpo como instrumento de trabalho. Corpo nem sempre dentro das normas de modelos de revistas como Playboys e FHM’s, normalmente tatuado, cabelo azul e muitos piercings. Fotografias sensuais e provocadoras.

E, a dada altura, depois desta ter assumido que usar o seu corpo era a sua liberdade, foi-lhe perguntado se as pessoas não a rotulavam de “prostituta”. A resposta foi, obviamente, afirmativa. Porque toda a mulher que mostre o corpo ou que trabalhe com ele, automaticamente está à procura de sexo. Ridículo.

E se um homem o pode fazer, o que nos impede, a nós, de usarmos o mesmo direito?

Lembremo-nos de que vivemos em sociedade e há limites que não devem ser ultrapassados. Este, da liberdade de expressão corporal , é um deles. Assim como reservarmos o limite de não nos tocarem/assediarem/maltratarem.

 

Isto tudo mesmo a propósito das barrigas de aluguer, que voltam à baila, para serem aceites como nova forma de maternidade de substituição. Ora as mulheres, na sua grande maioria, querem ser mães, em algum momento da sua vida – eu sei que eu quero-. Mas, infelizmente, ainda há mulheres que nascem sem esse direito. É coisa da natureza, que nunca é perfeita, e não há muito que ainda possamos fazer sobre isso. Existe uma doença, de seu nome Síndrome de Mayer-Rokitansky-Kuster-Hause (MRKH), ou seja uma mulher que nasceu sem útero. Mas isto não a invalida de ter óvulos e ovários ou seja, a mulher que sofre desta doença ainda pode ter filhos “biológicos” sem ter de recorrer à adoção.

Vejamos, nem todas as mulheres impossibilitadas de engravidar querem adotar outras crianças. Eu sou a favor da adoção porque acho que todos esses meninos e meninas têm direito a um lar mas, temos de respeitar quem quer, primeiro, tentar gerar um filho seu. Mulheres inférteis mas com úteros, podem tentar inseminações artificiais e por aí. Mas toda a gente sabe que isso tem custos elevadíssimos e, as chances de sucesso ainda são muito baixas. Nem todos os casais se podem dar ao luxo de passar por isso.

E é para isso que existem mulheres que são barrigas de aluguer. Elas alojam em si um óvulo e um espermatozoide que não são seus e, durante nove meses, são o lar daquele feto. Claro está, que isto levanta questões morais das mais variadas formas: a mulher normalmente cria sempre um laço que a liga ao feto, e esse vínculo pode fazer com que, no final, a mulher desista de dar a criança aos pais. E depois, a questão: afinal quem é a mãe: a que dá o DNA e o óvulo e etc, ou a que a cria, durante nove meses, dentro de si? É uma questão ética muito delicada, e não devíamos ser levianos sobre isso. Mas também não pode ser confundido, como prevê a lei, uma atividade mercantil. A mulher não é um objeto, apesar de ser diversas vezes objetificada.

Mas eu não vim dar a minha opinião (ainda debilmente formada), sobre este assunto. Vim apenas reiterar, com mais este exemplo, que só a mulher e apenas a mulher, pode decidir o que acontece com o seu corpo. Deus chamou-lhe livre arbítrio. Que seja!

Usemos esse livre arbítrio para nos darmos ao respeito e para nos respeitarem. É facto, que há mulheres pelo mundo fora a serem desrespeitadas por falta de respeito próprio. Mas ainda assim. Nada justifica esta constante luta, ao longo dos séculos, pelo respeito do corpo sagrado de uma mulher! Corpo que deu à luz esses homens que estupram, rasgam, queimam, mutilam e ofendem o sagrado do nosso corpo.

 

xoxo, C.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s