Tenho tatuagens: Olá liberdade de usar o MEU corpo, adeus planos para o futuro

Hoje li uma “notícia” que me chamou a atenção e me deixou comichosa desde que a li. Então não é, que segundo o site do dinheiro vivo (www.dinheirovivo.pt), temos de ter muito cuidado com as nossas tatuagens?! Isto porquê? Ora, porque segundo afirma um especialista do Center for Professional Excellence, no York College, Pennsylvania “A influência da aparência vai para lá do processo de contratação. Tem um impacto na perceção na competência” – cito.

Isto, vindo a propósito da Ryanair estar, este mês, a recrutar em Lisboa e no Porto e, assim como a companhia aérea dos Emirates, não aceitam pessoas que tenham tatuagens. Ali, algures naquele “artigo”, dizem que ninguém levaria a sério um/a assistente de bordo que tenha um golfinho tatuado na mão. Ora, quem diz um golfinho, diz uma frase ou um número no dedo (como eu, por exemplo).

Depois jogam assim uns dados de uns estudos dúbios, que dizem que tem vindo a crescer o número de profissionais, na faixa etária dos 40-50 anos, que vão remover as suas tatuagens feitas em momentos menos áureos porque, segundo um desses senhores que trabalha na remoção, a laser, de tatuagens, sentem-se “desconfortáveis” e com “vergonha” das mesmas.

Como se isso não bastasse, aparece uma dermatologista a dizer que, e passo a citar, “Pessoas com tatuagens estão associadas a comportamentos de bêbados”. E é aqui que eu riu. É que só mesmo para rir, porque eu conheço muito bons bêbedos de corpos virgens, e muito boa gente tatuada que não toca num copo de álcool. Mas quando falamos em gente tatuada, pressuponho que se estejam a referir àquelas pessoas que têm braços, peito, costas, pernas e por aí, carregados de tinta. Acho que excluímos aqui a menina que tem uma estrela no pulso, ou uma frase no pé e achaque é digna de aparecer no LA Ink.

Ora, eu tenho algumas tatuagens. Não posso dizer muitas porque acho que muitas tem a Kat Von D, por exemplo, mas conto já com algumas. E digo conto porque tenho de as contar. Já passam da mão cheia – a última vez que contei eram 16 -. E acho um absurdo esta notícia. Não sou rockstar nem devia aparecer no LA Ink. Mas também não acho que haja o direito por parte de alguém, de me retirar oportunidades de trabalho, porque gosto de riscar o corpo. 

Isto vai de encontro à minha crónica de ontem. O corpo é meu, ora bolas, e eu decido fazer com ele o que quero. Claro, que ao fazer o que quero, tenho de lidar com quem não concorda com o que eu faço. Verdade, mas aqui estamos a falar da igualdade de oportunidades. Ter uma tatuagem no braço faz de mim menos competente para executar um trabalho que uma pessoa não tatuada? Ora, burrice minha, que pensei que era para isso que as nossas faculdades mentais, culturais, sociais e por aí fora, serviam. Se eu soubesse que ia ser avaliada pelo que risco no meu corpo, nem tinha entrado para a faculdade, não é? Então se me vão selecionar – ou não -, de acordo com o que tenho pintado, é melhor que tivesse poupado os quatro mil euros das propinas. Ah, mas depois eles dizem, mais à frente, que não é bem assim. Afinal, posso trabalhar num “ambiente criativo como o da publicidade, ou em Silicon Valley, onde uma tatuagem fica bem”. Ah, peço desculpa, que eu não entendi que, para ter tatuagens, tenho de ser especialmente criativa E, ir para a Califórnia… não que eu me importasse, mas também gostava que não decidissem isso por mim. Depois, voltam ao ataque, a dizer que em Wall Street, uma tatuagem não “beneficia a carreira de ninguém”. Ah, pois não. Eu, trabalhar na bolsa, com as costas como tenho, todas riscadas, é perigoso. Os gajos e as gajas podem mais facilmente extorquir-me ou posso dar palpites errados porque, como toda a gente sabe, as tatuagens dão comichões constantes, e isso impedir-me-ia de ser corretora da bolsa, ou ter algum tipo de profissão “de sucesso”.

Também há um que diz que “ah e tal, agora tornou-se mania e moda, marcar no corpo tudo o que nos acontece” (sem citações) e depois deu o exemplo do Beckham e da Delevigne. Olha a lata! Cada um marca onde quer, o que quer. Se somos livres de escrever em diários e em blogues, porque é que eu não posso escrever no meu santo corpo. É, como eu disse, a única coisa que é realmente minha. A única coisa que eu posso controlar, mudar, possuir. É meu e eu faço dele o que quiser. Se eu posso fazer uma dieta, posso tatuar. Posso furar.

Mas, aparentemente, cresceu o número de pessoas que, pelos seus motivos, quiseram remover as tatuagens, a laser (que dói como o cacete e é caro) e, então, é legítimo criar estudos que digam que ter tatuagens é reprovado pela sociedade mesquinha e preconceituosa onde habitamos.

Toda a gente fala do preconceito com os pretos, os gays, os ciganos, as mulheres, os bastardos, etc etc, e acho bem que falemos disso e que lutemos contra isso. Mas para quando começar uma nova luta, contra o preconceito sobre o visual das pessoas. E já nem entro no debate das roupas que usamos, porque isso é uma forma de cultura, como já estudei, e uma forma de aceitação social. E sim, a roupa que vestimos diz muito sobre nós e influência e é influenciada pelo meio onde nos inserimos. E é algo que podemos moldar. Agora, sinto-me cada dia mais triste e desmotivada, por viver numa sociedade – num Mundo -, que custa aceitar que as pessoas usem o seu corpo como melhor lhes apraz. No outro dia, no Instagram, um #hastag redirecionou-me para um monte de fotografias pro-ana. Sim, daquelas meninas que concordam e praticam a anorexia e a bulimia. Umas mostravam as pernitas ali da grossura do meu antebraço, outras os ossos da bacia a cortarem a pele, outras punham imagens que incentivavam a fome e, o que mais me chocou, foram aquelas que mostravam os cortes nas pernas, nos braços, as fotografias suas nos hospitais, com a pele cravada de pontos e suturas. Mas isso, que é uma doença, é okay. Há quem possa cortar-se mas não há quem possa tatuar-se sem ser alvo de algum desdém por aqueles que controlam a nossa sociedade de massas.

Hoje em dia, especialmente numa cidade como Lisboa, e nas grandes metrópoles, há cada vez mais pessoas tatuadas, de barbas, piercings e rastas. Mas, ainda assim, vemo-las nos seu habitat, junto com os que são iguais a si, ou partilham as suas ideias e os seus conceitos. E isso promove uma sociedade de grupos e mesquinha. É separar para reinar? O problema, é que eu ainda não fui a um supermercado ou hipermercado, daqueles género continente, el corte inglés e, até, pingos doces, e me deparei com caixas, ou repositores ou algum trabalhador de tatuagens, piercings, túneis, rastas ou aspeto alternativo. E porquê? Muito menos nos cargos de chefias. Onde eu trabalho, por exemplo, já vi dizerem a colegas minhas para não usarem os túneis abertos na caixa. Que mal faz!? Isso impede alguém de passar um código de barras por um scanner? É a aerodinâmica do túnel que faz com que o vento passe pelo meio do mesmo e o braço seja mais lento e menos eficiente com o seu trabalho? Juro que não entendo.

A mim já olharam de lado pelas tatuagens nos dedos, no braço… mas eu ainda lido bem com isso, porque sei que o meu trabalho sai bem feito. Mas, um dia que queira candidatar-me a uma posição mais alta, não vou poder porque terei, por essa altura, uma manga? É ridículo, quando pensamos nisso, não é? Eu acho.

A tatuagem é algo que vem desde tempos passados, serve para embelezarmos a nossa casa ou, como diz Johnny Depp, para contar histórias. Eu gosto de tatuar porque sim. E porque não, também. A princípio era porque era algo importante, algo com um sentido muito forte apegado. Mais tarde, com os anos, começou a ser estético. Eu posso querer ter um desenho no meu corpo, sem que ele tenha de querer dizer alguma coisa. O corpo é meu. Nunca vês ninguém te perguntar o que significa para ti a cor que usas nas unhas, ou que sentido tem o corte de cabelo que fizeste… mas quando tens uma tatuagem, o que mais ouves é “isso tem algum significado?”, seguido de “doeu muito?”. Dói. Tens agulhas a perfurar-te a pele. Dói, a maior delas dói. Mas suporta-se bem. E não, nem todas têm significados. As últimas nem por isso. É como os piercings. Eu furei o mamilo sem significação nenhuma, para além da que gosto, é estético e é bonito. E dói para c*#%&!. A sério, é horrível. Acho que bloqueei essa dor, como as mulheres fazem com os partos, para conseguir fazer o segundo.

Viva a liberdade, mais uma vez, de usarmos o nosso corpo. Ninguém nos tá a tirá-la das mãos, com estes estudos. Eu continuo a poder ir marcar o meu corpo. Não me tiram a liberdade, mas condicionam as minhas escolhas futuras. Qual é o mundo em que vivo, que me faz ter de escolher o meu futuro, ou o meu corpo. Como se o meu corpo não fosse o meu futuro.

Eu, pessoalmente, escolho o corpo. É com ele que lido todos os dias, no presente. O futuro ainda lá está, em frente. E, honestamente, prefiro ser uma modesta cashier e blogger o resto da vida, sem grandes prospeções de riqueza e status, e ter-me toda riscada. Perninha, braço, costas… Prefiro ser cashier honesta comigo mesma.

Ah, e já fui tratada por um médico, no Hospital de Faro, com tatuagens no pescoço! Não morri. Os incompetentes daquele sítio são os mesmos que apoiam estas ideias. E não aqueles que, com o seu tempo livre, gostam do barulho da agulha na pele.

E, só pelas coisas, hoje vou tatuar a minha perna. Ah! Adeus futuro, até logo cogumelos.

 

Xoxo, C.

 

P.S.: Fica aqui a “notícia” do dinheiro vivo (http://www.dinheirovivo.pt/Emprego/Artigo/CIECO287609.html) , e o devido site do colégio da Pensilvânia (http://www.ycp.edu/offices-and-services/academic-services/center-for-professional-excellence/). 

E fica aqui um artigo pró-tatuagem no local de trabalho para, com ambas as visões, poderem decidir por vós. (http://www.forbes.com/sites/rachelhennessey/2013/02/27/having-a-tattoo-and-a-job/).

E, para finalizar, vejam estas imagens de pessoas tatuadas e, expliquem, porque não gostavam que um dia um advogado assim vos defendesse, um médico vos tratasse, um político lutasse pelos vossos direitos (http://www.pinterest.com/search/pins/?q=tattooed).

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