“És preta? Porquê?” – Como educar os míudos sobre a diferença

No outro dia aconteceu-me uma coisa para a qual eu estava à espera a maior parte da minha vida adulta, mas também para a qual eu não me tinha preparado como deve de ser. Estava eu a trabalhar, normalmente, quando uma menina (pouco mais de dois anos, presumo), filha do senhor que eu estava a atender, me perguntou “és preta? Porquê?”. Ora, a minha reacção inicial, acompanhada de um misto de vergonha, perplexidade e uma pitada de irritação, foi rir. Porque rir é sempre o melhor remédio face à ignorância. Ri, e respondi que era preta porque a minha mãe também era. Normalmente, não ia entrar num debate racial com a criança. O pai, ao ouvir o inquérito da petiz, que ainda me questionou sobre uma ou duas coisas mais que nada tinham a ver com a minha raça, só fez uma exclamação de espanto e continuou a arrumar as suas compras. Ora, eu continuei com o meu trabalho, ri com a miúda e respondi-lhe a tudo prontamente e de sorriso nos lábios. Mais tarde, na altura de pagar, e em jeito de desculpa, o pai disse me que era normal o questionário, porque a menina o fazia a toda a gente. Depois acrescentou que, havia pouco tempo, a menina tinha dito a uma senhora de idade, qualquer coisa como “és tão velha,  quando é que morres?”. Eu demonstrei o meu espanto e, mais uma vez, sorri para evitar o desconforto. Não o meu, mas claramente o daquele pai que, por ignorância, falta de tempo ou algo mais, deixava a menina inquirir as pessoas sobre certos assuntos e não tinha uma conversa com ela sobre os mesmos.
Eu entendo que as crianças sejam curiosas, faz parte da infância. Agora, isto tudo levanta tum problema mais sério, que é o que pode advir dessas perguntas, se os pais não tiverem um papel ativo ao esclarecer a sua prole.
Depois veio me à ideia de que, um dia, uma dessas crianças pode ser o meu sobrinho. Um dia ele pode perguntar “mãe, porque é que eu sou branco e tu és preta?” ou, na escolinha, podem-lhe fazer a mesma pergunta. E isso vai implicar que, em casa, lhe seja dada previamente, uma explicação de como as coisas funcionam.
Nem todas as pessoas são iguais e ainda bem que assim o é. Há brancos, pretos, mulatos, de olhos em bico ou narizes chatetas. Há homens que gostam de homens e mulheres que gostam de mulheres. Há um sem-fim de escolhas diferentes e temos de por as crianças ao corrente disso. É necessário que se explique aos meninos e às meninas todas as diferenças que existem na sociedade. Não só as raciais, mas neste caso em concreto, também.
Eu não tenho, nem me recordo ter tido alguma vez, algum problema com a minha cor. Sempre aceitei muito bem ser mulata, ou cabrita, como chama a gíria. E até gosto. Esta é a minha realidade e não me diminuo nada perante isto. Nunca tive outra cor, nem nunca quis ter. Sou assim porque também a minha mãe é mulata, filha de Angolana com um português – branco. E o meu pai era o cliché nortenho: branco de olho azul-cinza. E, desta mistura racial toda, a única coisa que sempre lamentei foi não ter herdado os olhos do meu progenitor (já viram que gira ficaria com olhos azuis? Era mel ahah). Fora isso, sempre vivi bem.
Não vou dizer que nunca ouvi um comentário aqui e ali devido à cor da minha pele. Não vou dizer que nunca me disseram “tu nem és preta nem és branca”, meio pejorativo, meio em jeito de desculpa. Mas isso nunca me incomodou. O que me incomoda, isso sim, é a falta de educação nos mais jovens, desde petizes, que lhes incuta a diferença nos outros e em si mesmos. Eu não me acho diferente por ser “preta” ou mulata. Mas, claramente, na cabeça daquela menina, eu era diferente. E isso acontece porque nunca lhe foi explicado que existem vários tons de cor de pele. Todos eles humanos, todos eles iguais.
Eu não quero nem permitirei que,  um dia mais tarde, o meu sobrinho goze ou faça escárnio de um menino com dois pais ou duas mães. Porque a minha realidade é que existem pessoas que amam o mesmo sexo e isso é normal. Nunca vou permitir que o meu sobrinho se ache diferente ou se diminua, porque o pai é branco e a mãe é mulata e, consequentemente ele é branco. Porque tem uma avó preta e uma avó branca. Isso nunca permitirei. Nunca vou permitir que o meu sobrinho ache que um menino ou uma menina portadores de qualquer tipo de deficiência, é menos que ele. Ou que aponte dedos a pessoas que não se encaixam nos seus padrões. É aqui que a educação entra. A palmada que faz tão bem a certas crianças, ou o discurso em casa, cuidado e explícito.
E acho que é da consciência de todos os pais avisarem os filhos disso.
Porque ter um filho é mais do que parir uma criança para o mundo!  Ter um filho é educar. E essa mudança de fralda psicologia é a que cheira pior. Mas é a que mais precisa de ser mudada. E é também a que se deixa para encargo dos outros. Para as escolas, os professores, ou que se deixa a cargo dos outros coleguinhas. O problema começa (ou continua), quando esses coleguinhas têm a mesma educação (ou a falta dela) dos meninos. E vão aprendendo uns com os outros, deseducados, que a diferença é feia, é má, é repudiável. E criam-se assim os delinquentes mentais e dos jovens de ideais conturbados.

Manifesto aqui todo o meu desagrado perante uma situação que é bastante comum. Só me aconteceu há uns dias, em vinte e dois anos de vida, mas acontece a muita gente, numa base diária. E o preconceito é uma coisa que me dá tanta comichão e tanta repulsa. Porque isso só revela uma coisa: falta de conhecimento, ignorância. Que é, como a palavra indica, um pré-conceito de algo. Falam antes de terem conhecimento. E eu hei-de lutar sempre contra isso, a todos os níveis.

Eu sou a minha cor de pele, mas também sou mais que isso. Se não aceito que um adulto me julgue perante isso, também não posso aceitar que uma criança cresça a julgar-me por isso.

Quem diz a cor da pele, diz todas as outras diferenças que fazem de nós aquilo que somos. Se a minha cor de pele é o que sou, a sexualidade de alguém faz parte daquilo que essa pessoa é, assim como deficiências físicas ou mentais, fazem parte de quem as porta. Mas isso não é diminutivo de ninguém. Aposto que, em toda a sua vida genial, Stephen Hawking sofreu na pele o que é ser-se “diferente”. Mas isso não o torna menos genial.

Cito, aqui, uma parte daquele que é um dos discursos mais famosos de sempre e, que aparentemente, continua atual, mesmo que o tempo do apartheid  já lá vá.

Martin Luther King dizia:

I have a dream that my four little children will one day live in a nation where they will not be judged by the color of their skin but by the content of their character.” 

Que é como quem diz “Eu tenho um sonho que as minhas quatro crianças, vivam um dia numa nação em que eles não sejam julgados pela cor da sua pele, mas pelo conteúdo do seu caráter.” E esta é das coisas mais bonitas alguma vez dita.

Gostava que toda a gente pensasse como eu mas, uma vez que não é possível, deixo que reflitam sobre este assunto, ao som de Paul McCartney e de Stevie Wonder (http://www.youtube.com/watch?v=PSvnIwg0lEA).

 

Xoxo, A menina cor-de-canela, ou mulata, ou preta, ou Cashier. No BI é Cláudia Oliveira, cidadã Portuguesa. No coração é Cláudia, cidadã do mundo. Mulata, cor de canela.

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#somostodosmacacos ! Apoiem o Dani Alves. Não ao racismo!
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2 thoughts on ““És preta? Porquê?” – Como educar os míudos sobre a diferença

  1. gostei muito. só um reparo: o Luther King não é do tempo do apartheid porque o apartheid foi levado a cabo em países africanos. compreendo a confusão porque também já a fiz. aquilo que existiu nos EUA foi a segregação racial.
    bjnhx e continuação.

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