O drama das caixas prioritárias

 

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Se há uma coisa que eu gostava de ver esclarecida e gostava de esclarecer às pessoas, é exatamente como funciona uma caixa prioritária? Eu sou quase dona da caixa prioritária, em Almancil. A caixa-odiada por todas as cashiers, a frontal, a que têm na sua posse o microfone que nos obriga a dar os destaques, colmatando com um “Pingo Doce, sabe bem pagar tão pouco“, e que nos deixa encabuladas. A caixa que nos obriga a ceder a prioridade a quem, de facto, a tem e, que nos obriga a participar em discussões, com os clientes e não só, sobre o funcionamento da mesma.

Eu tive formação para exercer o meu trabalho que, ao contrário do que muitas pessoas pensam, não é um simples passar artigos pelo scanner, clicar em total e dizer a soma ao cliente. Há mais coisas, por detrás do que fazemos. Nós, as denominadas meninas da caixa, somos quem dá a cara ao cliente. Claro que existem as secretárias de loja, os adjuntos e, até, os gerentes, sempre presentes para falarem com as pessoas e esclarecerem as situações mais complicadas. Mas, antes desses levantarem os rabos das cadeiras, existimos nós, que estamos preparadas para responder à maioria das perguntas inusitadas dos clientes e arranjar as soluções. Só depois do assunto passar por nós e, caso seja mais complicado, é que passa a um superior. Ora nós, as cabeças de lista, somos as que levamos com tudo o que de resto se passa no supermercado. Está um preço fora do lugar? A menina é quem tem a culpa, e vou gritar consigo! A promoção não foi feita, no final? Oh menina, está a ver esta vergonha!? Enganou-se, concerteza! Isto há um rol de situações, algumas engraçadas, outras nem tanto. Não somos mártires, mas somos alvo de comentários como “eu sei que você até nem tem culpa, mas olhe, é você que está aqui, e agora transmita isso aí ao Jerónimo Martins.”  [P.S.: O patrão do Pingo Doce, o dono, o fundador, não se chama Jerónimo Martins. Isso é o nome da empresa. O nome do senhor meu patrão mor é Alexandre Soares dos Santos. Se querem reclamar assim tanto ao senhor, ao menos saibam a quem se dirijam, que isso é das coisas que mais me irrita. Cantam de galo, mas nem sabem as galinhas do capoeiro.]
Continuando… Agora que vim para Lisboa, não tenho passado tanto tempo na caixa prioritária, o que me dá uma certa alegria. Porque, eu que até gosto de dar dos destaques e de falar ao microfone (confesso que tenho boa voz e dicção e sou boa nisso), nunca gostei que isso viesse associado à caixa prioritária. Porque é aquela em que não podemos sair de lá para beber água sequer. Tem de estar sempre aberta.
Mesmo assim, nas vezes que já cá estive, já me aconteceram situações bastante engraçadas. Vamos lá, primeiro, ver: a caixa prioritária é uma caixa que concede às pessoas com prioridade (idosos, pessoas de muletas e/ou cadeira de rodas, grávidas e mães com bebés DE colo [e não ao colo, crianças de seis anos] e, talvez, outro tipo de invalidez justificada). Mas, por norma, não é isso que acontece. Ora passam à frente pessoas por que sim, ora quem tem, realmente, prioridade não o faz.
Mas qual é, o papel da cashier, em todo esse processo? Escutai, eu sei do que eu falo. Eu tive formação, informei-me o mais possível e até fui ver decretos de lei sobre o assunto. Há pequenas coisas que variam de loja para loja, consoante querem, mais ou menos, as reclamações. Mas depois existe o bom-senso. Eu, como cashier, não tenho de dizer a cliente algum para passar à frente na caixa. O cliente tem de se dirigir a mim e aos outros clientes, e proclamar a sua intenção de passar à frente. Só depois intervenho eu. Caso o cliente, por alguma razão, não queira informar todos os clientes, diz-me a mim e eu aviso os clientes. É essa a minha função, de mediadora. Não sou eu que vou dizer a uma senhora grávida para passar à frente, sem saber que o cliente a que ela está a ultrapassar tem uma dor que o impossibilite de permanecer em pé por muito tempo. Posso fazer isso, mas não é a minha obrigação, como muita gente acha. Um dia, apareceu-me uma senhora, que lá ao fundo trazia uma criança, não muito nova, sentada no banco do carrinho de compras. Eu olhei para ela, mas a senhora não fez sinal algum de querer passar à frente. E assim continuei a atender os clientes. Chegada a vez da senhora, pediu-me, para além dos sacos, que chamasse uma responsável. Sem me dizer para o quê, e eu assim o fiz (confesso que já sabia o que aí vinha). Quando chegou a responsável, a senhora reclamou porque eu não a chamei para passar e que tinha uma criança e, assim, não podia continuar a fazer compras ali, uma vez que não podia levar o filho. O míudo estava calmo, nem estava a chorar, o que justificaria que a senhora passasse à frente (mesmo o puto já nem ter idade de colo). Continuou, ao dizer que eu não tinha formação porque nem sequer dei indícios de reparar nela, muito menos pedi desculpa quando ela chegou à caixa. Eu, que não sou a menina de ficar calada, disse-lhe que era ela quem tinha de se manifestar mas, que não tinha de facto reparado nela a esse ponto. A senhora disse que não! ela não tinha de pedir para passar. CALMA! A caixa prioritária não é uma caixa exclusiva, e isso implica que quem quiser passar à frente, TEM DE pedir permissão ou a mim, ou aos clientes.
Não existe legislação sobre caixas prioritárias em privados. Em serviços públicos como finanças e etc, existe e está legislado quem tem prioridade. Nos privados não. Aliás, nem é obrigatório que esta caixa exista. É da consciência e do querer da entidade patronal.
Já me aconteceram tantas situações caricatas, que só quem trabalha como cashier, pode imaginar. Um senhor, uma vez, no auge da sua vitalidade toda, quis passar à frente porque, segundo dizia, tinha mais de 65 anos e, por isso, era considerado idoso. E assim foi. Aqui em Lisboa, há um senhor chico-esperto, que anda sempre a passar à frente. E, quando as pessoas reclamam, ele levanta a tshirt e mostra uma cicatriz enorme na barriga e diz que foi operado há pouco tempo. Mas aquela cicatriz tem um aspeto demasiado saudável para quem foi operado “há pouco tempo” e, caso assim fosse, duvido que mostraria. Enfim.
Coisas que só nos acontecem, às meninas da caixa. E este, como é um blogue de uma cashier, tem de ter aqui figuradas essas situações, dignas de um comentário como “Só comigo!”
 
Beijinhos, C.
 
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3 thoughts on “O drama das caixas prioritárias

  1. E tenho alguma simpatia por algumas “meninas da caixa”, sobretudo, obviamente, pelas que sabem atender… infelizmente, por cá, como muitas delas são mal-encaradas, acabo por optar pelas caixas-automáticas por serem “mais” práticas (quando não engatam e pedem que os/as assistentes intervenham). 😛
    Não deve ser fácil a tua vidinha. 🙂
    Beijinho

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    1. Nem sempre é fácil mas eu gosto do que eu faço. É um trabalho bom, gratificante na maioria das vezes e que nem me dá muito trabalho, por assim dizer. Mas, lá está, lidar com o público é sempre complicado e, como diz a norma, “o cliente tem sempre razão”, mesmo quando não tem.:)
      Beijinho. xx

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