point of view (cartas sem destino, parte I)

(…)

Foram mais do que os dedos podem contar, as vezes em que adormeci no teu colo, confortada pelos teus dedos passarem-me pelos cabelos, ficarem enrolados nos caracóis… acariciares-me o couro cabeludo, fazer cafunés. Mais do que a mente ainda se lembra, as vezes que me carregaste ao colo para a cama. Que me tiraste do sofá, embalada pelos sons dos programas televisivos que vias. Pelo cheiro do teu cigarro, recém aceso.

O coração ainda lembra, a mente nem por isso, mas sei que foram várias as vezes que, mesmo já não tendo idade, me sentava no teu colo e exigia ali ficar, a ver qualquer série de sábado à tarde.

Foram momentos felizes e lembro que a cumplicidade existia, como nunca houvera com mais ninguém. Naqueles momentos, só nossos, éramos um só e um só permaneciamos.

Também recordo, embora com pesar, a dor que por vezes me causaras. As noites em que fui dormir, de lágrimas nos olhos e embargo na garganta. Noites em que chorei, soluçei e repensei, vezes sem conta, sobre os meus sentimentos. Amei-te, odiei-te, tive medo por ti, tive repugnância. Contudo, na nova manhã que florescia por entre o meu olhar enublado de salgado, o amor mantinha-se.

Esperei por ti noites a fio, acordada, para adormecer em paz. Não chegavas, tardavas e, quando vinhas, tu não eras tu. O cheiro a tabaco e café impestavam-me o quarto e as lágrimas afloravam aos olhos. Tu só querias conversar e eu só queria dormir. Discutíamos e eu sentia sempre que aquilo era o ponto final para nós. Mas nunca era, porque o perdão vinha em força. Perdoas porque amas e eu amava-te (amo-te). Já me perdoaras outras tantas vezes, era mais que justo que eu o fizesse por ti. Mais que qualquer coisa, eras humano; erravas muitas vezes, sempre com a consciência de que, no final do dia, tinhas quem estivesse lá por ti e para ti. E eu estava, com uma amnésia própria de quem ama, de quem também erra e sabe reconhecer que errar é humano.

Mas, um dia destes, sem aviso, foste embora. Sem um “até já”, sem um “amo-te”, sem um “desculpa”. Foste embora e deixaste-me. Tu, que sempre me prometeras que nunca o farias. Tu, que dizias que não eras como os outros, que nunca me ias deixar ficar mal. Tu, que sempre tiveras de mim, mais do que qualquer pessoa me conseguira arrancar. Eras meu – prometeras-me. E, depois de ires, o que me deixaste para trás? Dor. Um peito apertado, cujo sangue jorra. Uma ferida aberta, que ora arde, ora dói. Nunca sara.

Não havíamos prometido às estrelas que este dia nunca iria chegar? Que íamos ser dois jovens em corpos de idosos, um dia, a contar histórias dos tempos em que as idas à praia duravam um dia inteiro? Contar as peripécias dos acampamentos, das noites a dormir ao relento? Não prometeras tu, ensinar-me a amar até não poder amar mais?

Disseras-me, num daqueles dias em que, sobre o teu colo descansei o meu cabelo, que me protegerias de todos os males do mundo. Eu não respondi, mas sentiste que eu sorrira. Claro que me ias proteger, eu sabia disso. Eu acreditava nisso. Eras a única pessoa a quem eu me lançava de costas, com a certeza de que me apanhavas. Nunca duvidei disso, até ao dia em que partiste. Ontem, joguei-me e caí no chão. Estatelada, magoada e de lágrimas nos olhos. Todos os dias desde que me deixaste – como sempre disseras que nunca o farias -, tento jogar-me mas sei que vou cair. 

Achas justo? Achas bem não manteres as promessas que me fizeste, em momentos de fragilidade? Achas bem mentires-me assim?

Que se dane! Não tinhas o direito de me fazeres isto! Oxalá me encarasses, para te poder dizer isto na cara! Oxalá tivesses a coragem de me aparecer à frente, para que saibas que eu te odeio por teres partido. Sem sequer uma festinha na cabeça… um último cafuné, em nome dos bons velhos tempos.

Agora, sem o calor do teu abraço, não tenho muito mais para me aquecer a alma. É injusto que aches que eu mereço isto, depois de te ter dado tanto.

Com certeza que me tornei no cliché que disse que nunca iria ser: ainda te amo. Ainda daria a vida para te ter ao pé de mim, se quisesses voltar.

Espero que leias isto e saibas que te perdoo. Porque todo o amor que te dei, naqueles tempos em que era a tua menina e tu o meu homem, ainda volve cá dentro. Ainda existe a chama, que outrora queimava em te perdoar, mesmo quando fazias de mártir por causas alheias. Que nos prejudicavam, mesmo que não fosse essa a tua intenção.

Volta para mim, que estás perdoado. Volta para mim, que agora sou eu quem te apoia no meu colo e te conforta. Volta para mim, porque eu continuo a precisar de ti. A querer ser tua.

Volta, toma-me nos braços, como se nunca me tivesses deixado ir.

Eu só quero que voltes, em nome de tudo o que somos e fomos.

Se eu tivesse a tua morada nova, mandava-te esta carta e tantas outras que eu escrevi. Mas nem isso me deixaste: uma morada. Uma prova de que ainda queres que vá atrás de ti. 

Um dia, encontro-te. De certeza que te acho e obrigo-te a ficares comigo.

Até lá, dou-te descanso. Quero que sintas a minha falta, que saibas que precisas de mim.

Podes voltar. Asseguro-te que não guardo rancor.

 

 

Com saudades e cheia de amor, da eternamente tua

filha, Cláudia Oliveira.

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