Eu nada sei sobre o amor (mas sei que ele existe)

Eu não sei nada sobre o amor. Apenas sei isso mesmo: que tudo o que sei é nada.

No alto dos meus vinte e dois anos, desta mão cheia de dias vividos, eu sei que ainda sou uma menininha, presa num sonho de que o amor é para sempre. De que aquele “nada dura para sempre” que tatuei, serve para tudo menos para a paixão, o amor, o enamoramento por outro ser humano.

Eu ainda vivo o meu primeiro amor. É a minha casa, o meu abrigo, o meu porto seguro. Não conheço outro amor que não o primeiro, não sei outra forma de dizer “amo-te” sem ser na direção da única pessoa a quem o disse. Para mim, que ainda vivo na ilusão de que vou ser feliz para sempre, neste primeiro amor, não existe a palavra “fim”. O conto-de-fadas não vai acabar, porque os “verdadeiros amores nunca acabam”.

Eu nasci da experiência de um amor que nunca acabou. Fruto de uma relação real, com altos e baixos e muito altos e muito baixos, mas que lutou para continuar. E que continuou até ao fim, ultrapassando a barreira dos vinte anos. Um amor que me fez chorar tanto de alegria, como de tristeza.

Eu nasci do exemplo que o verdadeiro amor não acaba. Mas isso não me garante que esse amor fora o primeiro da vida de cada um dos dois. E não foi. Antes deles existirem um com o outro, existiram outras pessoas. Eu nunca gostei de pensar nessas existências, porque se esses amores tivessem durado, eu não seria eu, nem estaria cá. Mas, a verdade, é que antes do Zé e da Maria, houve o Zé com alguém e a Maria com alguém.

Eu vivo o meu primeiro amor, e ainda acredito que hajam amores para sempre. Ainda acredito “num amor e numa cabana”, ainda acho que o amor tem o poder de curar tudo, de nos ajudar a superar tudo. Afinal, é o amor a cola universal das coisas partidas, não é? O remendo, o tapa-furos… Mas o que é que acontece quando a cola seca? O que é que acontece quando o amor, que era suposto colar todos os furos, tem ele próprio buracos? Tapamo-los com o quê? O que é que cola a cola?

No outro dia, enquanto conversava ao almoço com duas colegas, mais velhas, foi-me dito que o amor não é o comprimido para curar tudo na vida. Disseram-me que o amor era apenas um placebo e dos que passava rápido, genérico. Depois fizeram a pergunta da praxe: “se tivesses de escolher, preferias ganhar o euro milhões, ou encontrar o amor da tua vida?”. Numa mesa cheia, entristeceu-me que eu tenha sido a única a dizer que preferia o amor da vida. Entristeceu-me também os comentários e os olhares que se direcionaram para mim. “Oh, ainda é novinha”. “Um dia pensas de forma diferente, vais ver”. Eu não concordo mas, de novo, eu tenho vinte e dois anos e estava a falar com pessoas com o dobro da minha idade e das minhas experiências.

Eu disse-lhes que isso me entristecia… saber que um dia, com a idade deles, eu vou ser aquela pessoa… eu vou dizer aos mais novos que o amor não paga as contas, que o amor não enche o estômago e, que no final do dia, o amor não ajuda em muita coisa. Talvez… talvez eu seja essa pessoa. Talvez, quando o meu amor acabar, quando tiver uma desilusão, quando levantar-me pela manhã e a primeira coisa que fizer não for dizer “bom dia” à pessoa que eu amo (se eu nem tiver pessoa a quem dizer isso), talvez aí eu me torne num desses adultos que acha que o amor não vale a pena. Mas hoje, aos vinte e dois anos, a viver em pleno o meu primeiro amor, eu acredito que isso cura tudo. Acredito que é isso que me faz acordar de manhã, cheia de sono, e ter vontade de sair e aprender. De trabalhar no mesmo sítio há tempo demais…. Tenho a certeza que é o amor que me faz sair de casa quando quero ficar, é o amor que me impele a melhorar-me. É o amor que me torna ponderada, moderada.

Eu vou continuar a viver, dia-após-dia, na ilusão de que o primeiro amor também dura para sempre. De que eu, assim como muitas outras pessoas que eu não conheço mas que gosto de acreditar que existem, ainda podemos viver com o nosso primeiro amor e morrer com ele. Todos temos, como seres humanos que somos, a capacidade de amar mais do que uma vez na nossa vida. Amamos, sofremos e, mais cedo ou mais tarde, amamos de novo. Se calhar, até, como se fosse a primeira vez. Mas o meu coração, que ainda não sofreu realmente nenhum desgosto de amor, acredita que não terá de passar por essa regeneração dolorosa de deixar de amar – de amar de novo, depois de ter desaprendido como se faz. O meu cérebro não acredita na amnésia de se passar de um “amo-te” que era só para uma pessoa, e dedicá-lo a outra.

Mas, ali escondida por detrás de todo este vómito de romantismo, a minha consciência sabe que, um dia, mais cedo ou mais tarde, eu vou crescer e mudar de opinião. Sabe que eu vou desistir de pensar que existem amores para sempre, e que o primeiro amor pode durar uma vida toda. Cruel e fria, a vida dir-me-à um dia, que “a coisa boa do primeiro amor, é que é o primeiro de muitos”. E eu, derrotada depois de uma juventude a pensar que iria ser eterno, vou ter de viver com essa realidade.

Presentemente, enquanto vivo em pleno a força do primeiro amor, com tudo a que isso tem direito, acredito que durará para sempre. Se calhar, iludida pelo cheiro, pelo carinho, pelo amor. E, se assim for, iludida vivo e essa ilusão torna-me feliz, dá-me forças para enfrentar tudo… Porque eu sei que, no final do dia, eu ainda tenho em casa o meu amor à espera. Se acabar, até esse dia chegar, eu continuo a sonhar com “um amor e uma cabana”. Na minha inocência, mais vale dormir debaixo da ponte com alguém ao nosso lado, do que numa cama de penas, sozinha. Eu sou feliz assim. Pode não me encher o estômago mas enche-me o coração.

 

Como diz Esteves Cardoso, o primeiro amor

 É o único amor, o máximo amor, o irrepetível e incrível e antes morrer que ter outro amor. Não há outro amor. O primeiro amor ocupa o amor todo. “

 

 

Banda sonora do post: (https://www.youtube.com/watch?v=Z3E60Fc0b6o)

“Vou te falar, mas acho que você já sabe
Você apaixonou, alucinou, descompassou
Meu coração (…)”

 

 

Imagem

 

 

Cláudia Valentim de Oliveira, in Lisboa  01.06.2014

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2 thoughts on “Eu nada sei sobre o amor (mas sei que ele existe)

  1. José Laginha Olá Cláudia! Muito raramente venho ao face e hoje por mero acaso acabei lendo o teu texto, relativamente ao qual te agradeço do fundo do coração. Não escreveste nada que não saibamos mas fizeste-o com o coração todo na boca e isso asfixiou-me, fez-me ter vontade de te contar a história de alguém que tem saudades de viver esse estado de profunda graça. Foi há muito como podes imaginar, mas nem mesmo assim o esqueci. Prova de que a amnésia não ataca o coração. O alvo da tua paixão corporizou esse estado quase doentio de que não me arrependo e não quero esquecer porque não só faz parte como é o melhor de mim.
    Um dia tomamos café, só os 2 sem o “emplastro de olho azul”, e conto-te o meu filme, verás que não vale a pena ouvir os gastos e experientes, acredita mais nos jovens de espírito como myself (seja lá o que isso for). bj zé laginha

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  2. Muito bom! 😀
    Concordo contigo e acho que o 1º amor, se correspondido, deve ser vivido ao máximo, sem pensarmos se vai ou não durar toda a vida. Aliás, é como se costuma dizer, o mais importante não é o passado ou o futuro, mas sim o PRESENTE. É isso que estás a fazer, é isso que deves fazer!
    Parabéns por mais este texto! E vive, vive, vive, cada momento! 🙂
    Beijinhos

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