Novacane, part I

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« Ali, sentado na cama de Motel, à beira da estrada, tal qual filme barato, pensou sobre o assunto que o tinha levado até ali. Não sabia como percorrera as ruas, como apanhara o táxi – ou se tinha chegado de taxi, comboio ou autocarro -. Mas lembrava-se de que chegara ali sozinho. Sozinho, como desde o momento em que ela o abandonara, naquela tarde solarenga de segunda-feira.

Ela sempre lhe dissera que nunca o iria abandonar mas, naquela tarde, a chorar e a soluçar – o que de alguma forma lhe parecera falso e lhe dera uma tremenda vontade de a esbofetear -, ela dissera-lhe que chegara o final para eles. Acabou. Assim, do nada. Como se os cinco meses nunca tivessem existido, como se fossem cinco dias.

“Não confies nela”, disseram-lhe mais do que uma vez. Porque ela não era uma dessas gajas de confiança, de facto. Era mais que sabido, lá pelas ruas, que ela não pertencia a ninguém mais do que ela mesma. Muito senhorita do seu nariz, fez-lhe confusão a facilidade com que ela se entregou nos seus braços… A languidez daquele corpo, que se moldava aos seus… a curva da cintura, que percorrera com os seus dedos mais do que uma vez. Os lábios, que beijara, sabiam a caramelo com canela. Não demasiado doce. Não demasiado finos. Eram os lábios de uma mulher que sabia o que dizer, quando dizer. Eram os lábios de uma mulher que podia prender um homem, apenas com um sussurro.

Ela prendera-o. De tal forma que, aqui sentado na cama, de cigarro aceso, não sabia o que acontecera na sua vida depois de ela o deixar. Desancorou o barco e navegou da vida dele para fora.

Apetecia-lhe chamar-lhe todos os nomes do dicionário, desde puta até mais não. Ofendê-la. E, ao mesmo tempo, tê-la nos braços, como quem possui algo muito seu; intrínseco. Daquelas possessões que são só nossas, que nunca nos podem tirá-las, a menos que nos tirem parte nossa… Ele já a tinha possuído assim, já a tinha sentido desfazer-se em mil e uma pequenas partes de nirvana, nos seus braços. Apertava-a com força, gritara que a amava, que ela era dele… E devia ter percebido que, naquele momento, se desvendava que ela nunca fora, realmente, dele. Ela nunca dizia nada, escondia as suas emoções… Ou, simplesmente, nada havia naquele coração vazio para esconder.

Decidido a pegar no telefone e a ligar-lhe, deixou essa ideia desvanecer-se e optou por sair dali. Queria mover-se mas não conseguia. Tinha medo de não poder confiar no seu próprio corpo e de as suas pernas o guiarem de volta ao inferno de tê-la. Sabia que precisava de algo mais, para aliviar a dor. Mas o tabaco acabara, o copo de bebida esvaziara-se (tal como o peso do corpo dela, na sua mão) e não havia nada para acalmar a dor.

Praguejou o mais alto que pôde e, num relance, tomou-se de pé. As pernas tremiam-lhe, talvez pela ausência dela, talvez pela presença do Bourbon. Fosse como fosse, tinha de ir embora daquele quarto, que cheirava a morte. Que estava impestado de odores familiares a sexo, drogas e cumplicidade mórbida.»

 

(…) To be continued

 

Banda sonora do post: Novacane, Frank Ocean

(http://www.youtube.com/watch?v=TMfPJT4XjAI)

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