Não sou santa, não me edifiquem (somos todos humanos)

Não me edifiquem, não me construam um altar. Não me tenham como especial, nem como vulgar. Eu sou o que sou, cada um é aquilo que é. Tenho a consciência de que eu não sou melhor do que ninguém e o meu papel na Terra não é competir com os demais. É ser boa naquilo que faço. Não a melhor, mas boa. Muito boa, que seja.

Todos queremos ser os melhores da nossa área, de determinado assunto. Ser melhor que o outro é obter o lugar do topo da pirâmide, é viver no cimo e saber que somos os melhores em determinada coisa. Mas isso não me enche as medidas. Esse que é, talvez, o objetivo final de muitas almas vagueantes, não é o que eu almejo, de facto. O que eu quero, é ser muito boa no que eu faço, seja isso o que for. Se eu escrevo e quero escrever, quero ser muito boa nisso. Mas não quero ser a melhor. Isso pressupõe que eu seja o topo da escrita. Para quê que me serve ser a maior nalguma coisa?! Se eu for muito boa, podem existir, como eu, outras pessoas muito boas no mesmo assunto que eu. Se eu for a melhor, pressupõe que ache que todos os outros sejam muito bons, mas não tão bons quanto eu. E, um dia, quando chegar um melhor do que eu, eu já não vou ser a maior. Isso para mim não serve de nada. Não me importo de me igualar num patamar com outrem. Podemos os dois (ou dez, cem, mil, …) ser bons na mesma coisa.

Não tenho paciência para aquelas pessoas que querem ser os melhores das suas aldeias, dos seus vilarejos…. Isso só trás frustração, porque nunca vamos ser os melhores em nada. O mundo está em constante mutação, hoje somos os melhores, duas horas depois, os piores.

Aperfeiçoarmo-nos para sermos muito bons? Sim, sempre. Os melhores? Até duvido que isso exista.

Toda a gente quer ser a/o melhor namorada/o, a melhor amiga, ter o melhor cabelo, o melhor corpo, as melhores mamas e o melhor cú do grupo, da escola. Cada vez mais aprendo que não temos de ser assim, melhores que ninguém. Não precisamos ser as melhores namoradas, temos apenas de ser namoradas muito boas. Não temos de ser as melhores amigas, temos de ser boas amigas. No que somos muito boas, já é ótimo. Se estamos onde estamos e conseguimos conquistar o que conquistámos na vida, é porque somos bons naquilo que fazemos. Mas isso não quer dizer que sejamos os melhores. Ignoremos esse “ser-se melhor” para sermos apenas bons. Muito bons, que seja.

Eu não sou mais especial que ninguém, mas isso não me faz menos especial, também. Eu sou boa e especial, porque há quem pense isso de mim, inclusive eu. Se há quem acredite em mim, quem me ache especial, então eu sou-o. Da mesma forma, se há quem ache que eu não sou especial, não sou boa, é porque das duas uma: ou, de facto, respeitando a opinião dessa pessoa e dentro dos seus padrões, eu não sou especial, nem boa ou, a segunda opção é que alguém está demasiado ocupado a achar-me menos e, consequentemente, preocupa-se menos consigo. Todos somos bons, uns mais em algo, outros mais noutra coisa qualquer.

Não me posso fazer de vítima e dizer que já fui gozada, já fui trocada, já me trataram mal, por aí. Sim, fui, aconteceu. Mas não sou santa, nem quero ser. Já disse e repito: não me edifiquem! Já fui gozada, mas já gozei. Já fui trocada, mas também já troquei. E sim, todos o fizemos. Mesmo que tenhamos sido o patinho feio do básico, ou do secundário, havia sempre um patinho ainda mais feio do que nós, mais ignorado e mais incompreendido. E toda a gente já usou esses que eram mais infortunados do que nós, para nos sentirmos mais superiores no nosso patamar inferior. Ninguém é imune de ter usado alguém, algum dia, para se sentir mais e melhor consigo mesmo. Todos o fazemos ou fizemos e não somos santos nem anjos assexuados. Eu, que durante muito tempo me senti injustiçada por ter sido órfã aos dezassete anos, já usei o facto de haver meninos e meninas mais novos do que eu, mais pobres do que eu e mais órfãos do que eu, para me sentir melhor com a minha situação. E isso não me trouxe nada de bom, a longo prazo, mas confesso que a curto, me fez sentir mais afortunada. Não mudou nada na minha vida nem na vida dessas criancinhas.

Se somos todos macacos, somos todos humanos. E, como humanos que somos (e macacos) temos coisas boas e menos boas e coisas menos boas que podem ser melhoradas. Ninguém é dono da razão, assim como não há donos de lugares, de pessoas, de coisas. Somos, se tanto (e há vezes que até disso tenho dúvidas), donos de nós mesmos. Do nosso sorriso, do nosso corpo, do nosso destino. Melhoremos isso, foquemo-nos nisso. Mas não queiramos que o nosso sorriso seja o mais brilhante do mundo, porque nada nos dá o direito de ofuscar os outros sorrisos, que são lindos e bonitos, e tão belos como o nosso.

As palavras-chave aqui são essas: tão como. Não mais que, ou menos que. Tão como. Se pensarmos assim, vamos ser o melhor de nós mesmos. Aqui atrevo-me a contrariar-me e dizer que, desta forma, podemos ser os melhores. Mas melhores do que fomos ontem, não do que o outro foi ou é. Competamos connosco mesmos, não com os demais. Foi por competirmos com os outros que entrámos em guerras mundias e conflitos armados. E nunca vi ninguém sair vencedor dessas lutas. 

 

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Cláudia Valentim de Oliveira, 06.06.2014, Lisboa.

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