De coração exposto, em alta definição

Errar é humano e devemos errar muitas vezes, acredito. Só ao errar aprendemos, só ao cair nos levantamos e por aí. Devemos sempre encarar a vida da forma mais positiva possível. Porque a melhor coisa do mundo é viver, estar vivo e ser feliz. A vida só feita de coisas boas não era a mesma coisa, era? Como é que iríamos dar valor às coisas se nunca soubéssemos o que é viver sem elas? Às vezes, um bocadinho de falta de alguma coisa, ajuda-nos bastante a dar o merecido valor. E isto é válido para pessoas, mais do que coisas ou substâncias!

Vou falar muito a sério: amem muito! Se namoram, digam à pessoa que a amam, com frequência. Porque nunca sabemos se essa é, ou não, a última vez. Não adiemos os sentimentos.

Se não namoram, digam-no a vós mesmos, digam-no à mãe, ao pai, à irmã, ao sobrinho, à melhor amiga, ao colega do trabalho, ao cão e ao gato. 

Eu sei o que é acordar de manhã e querer dizer a alguém o quão importante essa pessoa é e foi na minha vida, presentemente durante dezassete anos, e não o poder fazer. Não poder ligar, mandar carta. Não há telemóveis no céu. Nem rádios.

Se não formos muito bons a dizer as coisas, há várias formas de o expressar. Mas, garanto que, por muito difícil que seja (e eu que o diga) falar certos sentimentos, traduzi-los por palavras, ecoá-los para os sete-ventos, é uma coisa muito bonita de se ouvir. Todos gostamos de ouvir um “amo-te”, ou “gosto muito de ti”, “fazes-me feliz”, por aí. Às vezes não sabemos reagir da melhor forma, ficamos encabuladas, não sabemos o que dizer ou como retribuir. E é aí que o valor da palavra entra. Não um simples “eu também”, mas expressar de forma correta e completa um “sou mais feliz contigo; por ti”.

Ou um abraço. É engraçado… Quando era pequena, o meio-quilo chamava-me bicho-do-mato. Eu ficava muito chateada porque achava isso uma coisa injusta mas, a verdade, é que eu era um bicho-do-mato. Odiava beijinhos – davam-me mesmo nojo – e abraços. O contato físico nunca fora o meu forte, mesmo entre família. Era muito de ficar no meu cantinho, muito “não me venham chatear que eu não chateio” (essa parte ainda não mudou :P). Contudo, com o passar da idade e com as experiências sociais, fui mudando um bocadinho. Mas ainda foi um caminho longo. Na escola, não era daquelas meninas que chegava e cumprimentava toda a gente. Não entendia porque raios tinha eu de partilhar o meu espaço pessoal com outras pessoas, e ainda por cima beijá-las na face. Quem diz beijinhos, diz abraços, diz os toques, o andar sempre agarrada às amigas, muito comum na secundária. Não dava as mãos a quase ninguém. Pensava sempre nos micróbios e fazia-me confusão. O diagnóstico era o que o meu pai previra: eu era, de facto, um bicho-do-mato. Mas, com o tempo, fui aceitando isso muito bem. Porque eu era assim e, mais do que isso, gostava de ser assim.

Lembro-me do primeiro beijo, a sério, que dei. Fui imediatamente a correr lavar a boca. E, pouco precoce que era, não era uma menininha, tinha já uns aninhos na adolescência. Mas, como já disse, as pessoas vão mudando. Ali no meu ano de viragem, depois de passar muita coisa e de me fazer passar por muita coisa, alguma da qual desnecessária e prejudicial, fui aprendendo a lidar de forma menos selvagem com isso. Fui aprendendo que um abraço não dói, não tira um pedaço daquilo que somos – a menos que deixemos, no abraço, o nosso coração. Fui dando mais abraços, apertando mais mãos, beijando mais. Aqui e ali, dizia às pessoas de quem gostava que gostava delas (escrevia mais do que dizia, mas fui aprendendo a dizer, ainda que por meias-palavras).

Apesar de ter perdido o hábito, com a idade, de chamar a minha mãe para me tapar, todas as noites, dar bejiinhos e dizer que gosto muito dela, fui sabendo abraçar, aqui e ali: o pai, a mãe, e até a irmã. Mas ainda não valorizava esses gestos de carinho e afeto como valorizo hoje.

Após ter perdido parte do meu coração no dia 18.11.2009, soube que nunca fora suficiente e que o meu défice de palavras podia ter sido fatal. Já escrevi, aqui, que nunca dissera, no final, que o amava. Escrevi, é certo. Bloguei sobre isso, dizia-o às minhas amigas e escrevia no meu diário. E, apesar de, lá no fundo, eu saber que ele sabia, gostava que ele o tivesse ouvido muitas mais vezes, por mim. Espontâneo. Eu sei que lhe faltou isso. Isso e abraços, beijinhos, apertos de mão, sem falar nada.

Hoje valorizo muito mais o valor das palavras. Eu e a minha irmã passámos horrores, depois da morte do meu pai. A irmandade enfraqueceu-se, por incrível que pareça, e fomos crescendo cada uma para seu lado. Infelizmente, eu percorri o caminho da rebeldia em que, à minha maneira, me mostrava mais sofrida. Hoje eu sei ver e dar a mão à palmatória: eu só pude enveredar por esse tipo de dor, porque coube-lhe a ela ir pelo caminho da responsabilidade. As duas sofremos, muito, mas alguém tinha de calçar os sapatos dele. E nos sapatos dele não haviam fraquezas. Só responsabilidades e luta e muita cola para tentar colar a família de novo, como antes. Eu tive o privilégio, posso ver agora, de sofrer de forma quase irresponsável, muitas vezes. Porque me era permitido ser a mais nova. Mas nem eu tive a culpa de ser a mais nova, nem ela de arcar com as responsabilidades. Contudo, já passou. E passou porque soubémos conversar, dar valor às palavras.

Uma relação nunca é perfeita e vai sempre existir atrito entre nós porque somos duas pessoas, que embora criadas no mesmo seio e sob a mesma educação, temos personalidades diferentes. Mas crescemos, passaram anos e sabemos, agora, que nada é mais importante do que a família. E fui, assim devagarinho, dando mais valor à importância de dizer que amo quem amo. Que gosto das pessoas. De lhes lembrar que me fazem feliz, quando é facto. Mas, também fazer ver quando me fazem infeliz.

A parte dos afetos físicos, do carinho, do abraço e da mão dada, aprendi porque o Ivo me ensinou. Sim, eu já dava abraços às minhas amigas, eu já lhes dizia que eram importantes. Mas a importância de, espontaneamente, dar um abraço, um beijinho, um carinho e dizer o que nos vai no coração, fui aprendendo com o tempo que passei com ele. E ainda tenho um grande caminho a percorrer. Ás vezes não digo, porque acho que já sabem. E, sabendo, facilitam-me a dura tarefa de ter de verbalizar o arco-íris que vai no meu peito. Escrevo, porque espero que leiam e que isso seja a mesma coisa que ouvir. Mas também já soube ver que não é bem assim. Eu também prefiro ouvir, porque é que não irei dizer?

Tenho aprendido, na minha caminhada, que tenho muito mais para dar do que aquilo que pensava possível. Aprendi que sou boa pessoa, mas que as boas pessoas também erram. O meu pai ensinou-me isso, a vida toda. A sua figura era a personificação do erro numa boa pessoa. E as boas pessoas têm desculpa, na maior parte dos erros. E, quando não têm por si, pedem desculpa. Também aprendi a pedir desculpa, coisa que há uns anos atrás me dava comichão e me deixava desconfortável.

Aprendi a dizer que tenho saudades. E digo-o muitas vezes, porque eu sou uma saudosista nata. Tenho saudades de pessoas, de lugares, de vivências, de experiências. Especialmente de mim. Saudades do que era, do que fui. De todas as coisas que fiz, e das coisas que podia ter feito.

Mas andei o suficiente para saber que agora vivo cada vez mais o presente, livre do peso de saber que ficaram coisas por dizer. Por isso, digo mais vezes que gosto, que amo, que tenho saudades. Que me fizeram feliz, que me magoaram. Porque o ensinamento é para ambos os lados. Já não deixo que me pisem como antes. Já não fico com coisas entaladas. Digo o que tenho a dizer, defendo-me, falo a minha verdade. O que me deixar mais descansada, o que me der paz de espírito. Eu sei que eu sou boa pessoa, eu gosto bastante e demais daquilo em que me tornei. Eu sei que, a pessoa que sou hoje, em deterioramento da pessoa que era, por exemplo, há três anos atrás, o está a deixar muito orgulhoso da filha que criou, mas que não viu crescer. E é isso que importa. Que eu saiba quem sou, que eu saiba onde estou, hoje, e que eu saiba para onde quero ir, amanhã.

Se, por eu ter aprendido a falar por mim, a falar o que penso, a ser mais verdadeira e a “papar menos grupos”, gostarem menos de mim, não me importa. Quem viveu comigo, quem cresceu comigo, sabe que eu melhorei. Quem ainda cresce comigo, todos os dias acorda ao meu lado, sabe que eu cresci e continuo a crescer, em direção à mulher que eu quero ser. Aquela que eu era, há tempos atrás, podia ser a queridinha de toda a gente. Mas isso era porque se deixava levar muito mais. Pensava, mas não dizia. Deixava abusar. Mas, quando finalmente nos levantamos em ambas as pernas, com toda a força que apanhámos da vida, somos sempre mais odiáveis. Porque ser-se seguro de si, das suas capacidades, é ser-se arrogante, convencido, é “ter a mania”. A sociedade “molda-nos” para sermos de barro mole, que se adapta a todas as pisadelas. E, quando finalmente cresces para ser “barro duro”, tentam-te quebrar e partir. E, sim, o barro duro é mais fácil de partir. Mas já tem a sua forma criada. Deixa de ser molde para passar a ser peça.

Ainda tenho muito que aprender, nomeadamente a parte em que falo mais, faço mais, dou mais. Também tenho de aprender a saber dizer “não“, que é outra das minhas grandes batalhas. Mas, até agora, em vinte e dois anos, estou onde nunca pensei, mais feliz do que pensei ser. Mais amada. Amor que nunca pensei receber, porque achava que não era digna. Que as outras raparigas é que iam ser mais felizes, que nunca ia recuperar o amor da minha família…. e agora sei que ele nunca se perdeu. Sei que, afinal, eu não sou as outras raparigas, e que há amor à espera na esquina para mim e para elas.

Do fundo deste órgão visceral, sangrento e venoso, que o coração é, posso dizer que sou feliz. Porque a minha vida é, foi e será um mar de provações. Mas eu sei mais e melhor para conseguir ultrapassar. Tenho , acredito em mim e nos outros. Acredito que, sim! eu posso mudar o mundo e o mundo pode-me mudar a mim. Sei que, mesmo que hoje doa, a verdade é que amanhã dói menos. E uma lição é sempre retirada disso.

Vou-me comprometer a amar ainda mais, a dar mais beijos, mais abraços…. Porque amanhã posso cá não estar, ou podem eles. E não quero viver em arrependimento de não ter dito, não ter feito…. Porque já sei o que isso é. E sei que nunca mais me quero sentir dessa forma.

Esta sou eu, Cláudia Valentim de Oliveira, filha de Maria Orlanda Valentim de Oliveira e José de Oliveira, de coração exposto. Assumindo erros, virtudes, defeitos e por aí. Mas sem nunca deixar que me voltem a pisar ou a sentir que eu não mereço o que eu tenho. Que não mereço mais.

Imagem

Cláudia de Oliveira, 17.6.14, in Lisboa.

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