A sabedoria da D. Lurdes

A D. Lurdes é minha colega de trabalho, aqui em Lisboa. Uma senhora de classe, nota-se à distância. A Dona Lurdes, mulher nos seus cinquenta anos, embora nunca lhe tenha perguntado a idade, é uma senhora muito bonita. Veste-se bem, com os seus vestidinhos vintage, cintados e de saia rodada. A dona Lurdes é ruiva e usa o cabelo curto, num corte à rapazinho, mas sempre muito bem penteado, e com uma franja bem arrumada.

Eu conheci a D. Lurdes quando me transferiram para esta loja, temporariamente. E gostei imediatamente dela. Essa senhora simpática que trabalha há mais de vinte anos no supermercado. A D. Lurdes é a operadora de caixa e colaboradora mais antiga na loja. Por ali já viu entrar e sair colegas, adjuntos, gerentes, secretárias… Todos foram e vieram, mas a D. Lurdes ficou. E, às vezes, pergunto-me se não foi pela simpatia que ela emana.

Sempre conversámos muito, quando nos encontrávamos no balneário. Eu adorava os vestidos dela e ela os meus. E, ontem, a D. Lurdes ensinou-me uma coisa muito importante. Algo que já me têm vindo a ensinar a minha vida toda mas, apenas ontem, aquele ensinamento me tocou, e algo em mim pensou que esse foi o ponto de viragem, que daqui para a frente eu vou começar a guiar-me pelo que ela me ensinou, ontem.

Falávamos sobre ver o melhor em cada situação, olhar as coisas pelo lado positivo e por aí. Eu, que até me considero uma pessoa bastante otimista e, dadas as circunstâncias até o sou, dizia que, por norma, era uma pessoa calma mas, o que ainda me faltava aprender era a ignorar certas coisas e a ser menos respondona. A D. Lurdes, na sua serenidade tão caraterística, sorriu e disse que eu tinha mesmo de aprender a fazer isso. Porque ela, que um dia fora como eu, aprendeu a dar a volta por cima. Aprendeu que, quando vêm ter connosco com sete pedras na mão, devemos respirar fundo e responder da melhor forma que sabemos: com calma.

Porque quem nos ataca, já vem à procura de guerra. Já vem de armas nas mãos e quer uma resposta igual, ou pior, que lhes dê razão para agirem mal. E o nosso papel não é esse, o nosso papel é sermos os maturos, os adultos e responder com classe. Porque, hoje em dia, o que não falta é gente com estilo, com as roupas e os sapatos da moda, mas classe, aquela elegância caraterística de quem sabe ser, é muito raro. E eu fui ensinada a ser assim. Portanto, só preciso de lutar contra este meu mau-génio de não conseguir ignorar provocações.

De facto, como a D. Lurdes me disse, ao conseguirmos ser superiores vivemos muito melhor. A melhoria é apenas e só para o nosso proveito. Mas, também, fazemos com que as outras pessoas reparem que, nem sempre e quase nunca, a melhor solução é praticar o mal.

Ontem, a D. Lurdes ensinou-me a ter calma, ao ter calma comigo e explicar-me que, quando um cliente vem falar connosco irritado, a reclamar e de sete pedras na mão, temos de saber responder com calma, sorrir, quiçá um leve toque na mão e perguntar “desculpe, não entendi o que disse” e mostrar-mos a nossa simpatia. Por norma e mesmo que o cliente continue convicto na sua malvadez, já estamos a dar um passo para que ele entenda que não pode falar assim connosco. E, ao mostrarmos a nossa calma, acalmamos a pessoa com quem falamos.

Toda a minha vida esta foi uma das minhas maiores batalhas. O meu pai dizia, a minha irmã dizia, a minha mãe…. eu tinha de parar de ser tão respondona porque, por vezes, ignorar é a melhor resposta. E eu sempre soube, toda a minha vida, que isso era a coisa correta a fazer. Mas, o meu feitio (e desculpava muitas vezes isso por ser Touro) fazia com que eu achasse que, ao não responder, estava a dar espaço para que continuassem a pisar-me e a desrespeitar-me. Mas nem sempre funciona assim. E ontem vi-o com uma clareza impressionante. Com isto, não quero dizer que deixemos que as pessoas pensem que somos moles, mas temos de vergar. Temos de mostrar que a nossa educação nos eleva mais alto. Damo-nos mais ao respeito ao respeitarmos a nossa calma interior, a nossa paz de espírito.

Não me pareceu que a D. Lurdes, por ser calma e condescendente, seja menos feliz por isso. Antes pelo contrário.

Aprender a ignorar provocações, imitações, falta de classe e respeito próprio é o primeiro passo para nos tornarmos melhores seres humanos. Portanto, o que a D. Lurdes me ensinou ontem e o que tenho lutado para aprender a vida toda, é que temos de ser melhores do que aqueles que nos querem “roubar” o inteleto. 

Por incrível que pareça, ontem o dia de trabalho correu-me muito melhor, com menos stresses e mais sorrisos. E, sim. Mesmo quando havia aquele protótipo de cliente x, aquele que vem ter connosco irritado, frustrado, mal com a vida, mesmo aí eu consegui manter a minha calma. E, a verdade, é que me senti muito melhor. E senti que passei essa virtude para quem falava comigo.

Ora, portanto, a D. Lurdes, ontem, ensinou-me a crescer. E eu só tenho de lhe ficar grata por isso. Porque, toda a minha vida me vi a lutar por uma batalha que perdia. Porque me dava demais e dava demasiada importância a quem tentava provocar-me. 

Agora sei mais e melhor. Aprendi a bênção de ignorar para prevalecer. Cada um dá aquilo que tem. E eu não tenho pedras para dar. Não posso apanhar as que me atiram e jogá-las de volta. Não funciona dessa forma.

Obrigada, D. Lurdes.

A D. Lurdes existe mesmo, é uma mulher muito querida. E, talvez por saber enfrentar a vida dessa forma, seja assim. Também ela teve de aprender, como eu. E, como me disse, é uma batalha. Porque por vezes, as provações por que passamos, levam o melhor de nós. Mas a virtude reside no facto de sabermos levar a melhor aos problemas.

Cláudia Oliveira, 21.6.14, Lisboa.

 

Imagem

 

P.S.: Já tinha saudades do blogue pessoal. Talvez não escreva tanto quanto gostaria, mas a criatividade aparece quando tem de aparecer. Não quero que isto se torne mais um daqueles blogs onde se fala de tudo e de nada, onde me banalizo. Fofocas, temas vazios, coisas para encher espaço. Quiçá, ao tornar-me mais “comercial”, teria mais pessoas a ler-me. Mas para ler fofoquices e banalidades, temos o Correio da Manhã.

O Crónicas de uma cashier sempre foi pessoal. Sempre foi muito verdadeiro. E eu quero manter-me assim, fiel àquilo que sou. A minha veracidade traduz-se naquilo que eu escrevo. Encher isto com “palha” apenas para ter mais posts ou mais views, nunca foi o objetivo. 

Obrigada, a quem lê, pela paciência. Por gostarem e por saberem que o bocadinho de mim que eu ponho aqui é verdadeiro. Um grande agradecimento.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s