El Menau

Eu conheço o Élsio Menau. Não apenas pelo facebook, nem apenas de vista. Eu já tive o prazer de falar com o Élsio, conversar com ele, e de ser tatuada por ele. Eu gosto do Élsio. Ele é uma pessoa como não há muitas, hoje em dia. O Élsio é calmo, muito positivo, simpático, dono de um sorriso contagiante. É boa pessoa. Eu gosto do Élsio. E, mais do que boa pessoa, ele é de facto um bom artista. Um artista completo. Basta ver os trabalhos dele para sabermos que o El Menau é artista de mente aberta, criativo, dono da sua própria cena. Tem uma associação de arte, a Policromia e outros projetos. Participou em diversas exposições, faz dos graffitis mais bonitos e originais do Algarve e, quiçá, do país.

E porque é que eu estou-vos a falar do Menau? Ora, porque o Menau vai a tribunal. E porquê? Porque ser artista em Portugal, aparentemente, é crime. Passo a explicar: na sua licenciatura em Artes Visuais, na faculdade do Algarve, Menau fez um projeto “Portugal na Forca”, em que aparecia a bandeira Portuguesa “enforcada”. O trabalho valeu-lhe 17 valores mas, apenas porque os professores acharam que o tema era muito “forte” e “direto”. Valia muito mais e Menau podia ter acabado o curso com vinte valores.

Esta segunda-feira, Menau vai a tribunal por, alegadamente, ter cometido um crime de ultraje à bandeira nacional. O que Menau realmente queria com o seu trabalho era, segundo o mesmo «uma representação do estado do país, já que estamos com a corda ao pescoço».

A obra foi retirada pelas autoridades, dois dias depois de ter sido colocada. Mas Élsio só foi intimado mais tarde, em Outubro. Mesmo depois de ter sido retirada, a obra ainda esteve em exposição durante cerca de dois meses, numa galeria de arte em Loulé, numa exposição realizada pela Universidade do Algarve. Mais tarde, um grupo de Hip-hop Algarvio – os Tira-Nódoas – serviu-se da obra para um dos seus video-clips, que conta com muitas visualizações e ainda passou na televisão nacional.

Menau conta que só foi intimidado pela polícia, depois do incidente com Cavaco Silva e a bandeira hasteada ao contrário na cerimónia de 5 de Outubro.

Eu sou a favor do Menau. Eu gosto e acredito na arte dele, no seu caráter interventivo, que é o que falta hoje. Profanação de um símbolo nacional? Onde? Quando existem bandeiras hasteadas nas casas das pessoas há anos, rasgadas, penduradas em paus de esfregona…. Quando o próprio presidente a hasteia ao contrário, quando há quem exiba bandeiras made in china, com os símbolos incorretos e pagodes em vez de castelos… Isso sim é profanar um símbolo nacional. Não é arte. Mas Élsio Menau faz arte. E o que ele fez tinha um intuito forte. E foi entendido assim pelos que vivem de mente aberta.

Ser-se artista de verdade neste país é crime. É ridículo.

Um país onde é permitido roubar, matar, violar, por aí, grafitar com arte é crime. Mostrar indignação pela nossa situação é crime. E a liberdade do 25 de Abril? Onde é que a obra dele nos ofende? Aliás, mostra o estado em que estamos.

Preocupem-se com os problemas reais de um país onde milhares morrem à fome, pela droga e na miséria.

Menau, eu estou contigo nesta luta, nem que seja como apoio moral. Eu apoio a arte e a tua arte! Continua e que venham mais como tu!

Página Oficial do Facebook da Associação Policromia

Notícia da TSF

Notícia na Sulinformação

 

Cláudia Oliveira, 21.6.2014, Lisboa

 

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5 thoughts on “El Menau

  1. Não quererás dizer intimado?
    Não me parece que vá sair daí uma condenação, de qualquer forma é ridículo gastar-se tempo e recursos a julgar tal coisa, quando a nossa Constituição é ultrajada diariamente pelos que nos governam, a nossa Língua e a nossa Bandeira é ultrajada pelo “nosso” presidente, e a nossa Tradição e a nossa Identidade é alienada em prol de uma União Europeia moribunda.

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  2. Uma vergonha, este país!
    Como posso sentir orgulho num país que é Governado por lixo/corruptos… e mais o que se quiser chamar a este bando?
    Para se ser artista, neste país, é mesmo impossível… sobretudo se forem artistas de intervenção, se assim se pode chamar.
    Mete-me nojo ter conhecimento deste caso… o rapaz fez um trabalho fantástico, um simples pendurar da bandeira e é ultraje? É a realidade do país…
    Mais grave é termos um PR que hasteia a bandeira ao contrário, que desmaia em pleno discurso e permite que sejamos roubados… ah, sim… ele também faz parte da escumalha… por isso aceita que tal aconteça… esquecia-me disto!
    Vai ser mais um artista que vai sair do país à força, estou a ver o filme ao longe… e faz ele muito bem, porque este país não é futuro para ninguém, a não ser que tenhámos “tintins” para mandar esta ladroagem toda daqui para fora, à semelhança da Padeira de Aljubarrota.

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  3. Gosto muito do trabalho do Menau. Contudo, Portugal na forca deixou-me um bocado a desejar. Por um lado, pareceu-me uma tentativa algo fácil de abordar um discurso “delicado” (este, de um país enforcado) sem o tratar com grande profundidade; por outro, a solução formal não é reveladora dessa condição enforcada de Portugal a menos que vejamos a estrutura sem o seu elemento problemático, ou seja, a forca sem a bandeira. A juntar a este último argumento, a bandeira parece muito mais estar hasteada do que, propriamente, enforcada — como a obra parece denunciar — uma vez em que ainda se manifesta imponentemente de acordo com a sua aparência bandeirante: esvoaça com o vento e é apresentada (penso que não por intenção do artista) como uma espécie de “halo” lumínico cuja coloração contrasta vivamente com os ocres de ambas estrutura e espaço que ocupa.
    Gosto muito do teu trabalho também, mas tenho alguns problemas com este texto. Primeiro porque conheço de muito perto as matérias que concernem ao estado da arte em Portugal e à consequente definição de artista e não penso que esta obra de Menau nos conduza a essa discussão. Aquilo que está em causa aqui, neste caso particular (porque a arte é feita de particularidades), é o já gasto comentário da profanação de um símbolo nacional. Eu não sou nacionalista — aliás, a própria palavra assusta-me — e tão pouco me agrada a ideia de “símbolo nacional”: não gosto de bandeiras, não gosto de hinos, não gosto de cerimónias, do galo de Barcelos, do tapete de Arraiolos, do Santo António, de Lisboa ou da Joana Vasconcelos. Contudo, a arte não se faz de particularidades nestes assuntos e é aqui que “a porca torce o rabo” porque, de facto, ela poderia fazer-se de particularidades e apenas assim não é porque, acredito, não existe em Portugal um discurso artístico muito firmado — como tu própria referiste — e, acima de tudo, o papel da crítica de arte não é reconhecido como uma necessidade mas, ao revés, como um mero discurso académico para os “entendidos”. Esta obra é realmente problemática (para mim, por razões que já tive oportunidade de mencionar brevemente) mas não penso que o seja porque toca de «”forte” e “diret[amente]“» no assunto; é-o porque ela tem a capacidade de pôr a claro o estado de uma crítica da arte inexistente num país que produz alguns dos melhores artistas contemporâneos. Como penso que saibamos, à crítica reserva-se o papel muito elitista de afirmar aquilo que, num determinado momento, pode ser arte (e o oposto também se verifica). Como penso que saibamos igualmente, a arte modernista/contemporânea evidencia que as linhas entre “arte” e “vida” se tornam cada vez mais ténues e os modos de representação tradicional estão já obsoletos. Estas duas ideias cruzam-se num simples ponto: está na mão de dois tipos de pessoas separar esta obra de Menau do espectro da “vida” a que a associamos quando a observamos para depositarmos nela a confiança de um objeto artístico de respeito. Estas duas pessoas são: a) o crítico e b) o espectador. É suposto que o crítico consiga, de uma certa forma, elaborar um discurso que permita distanciar esta obra da sua “praxis” vital e que o espectador, informado por este ensaio, atualize esta abordagem através da sua interação com a obra. É suposto que um crítico tenha a capacidade de, por exemplo, argumentar que este objeto é, evidentemente, transcendente e provocador, mas porque a sua dimensão concetual assim o determinou; é suposto que saiba esclarecer que a “bandeira” que vemos nesta obra não é a obra na sua totalidade, mas integra uma outra estrutura e é a interação entre estes dois elementos que fazem a obra na sua totalidade; é suposto que saiba referir que a forma como a “bandeira” de Portugal é aqui empregue ultrapassa os limites da sua condição de bandeira como objeto simbólico nacional para ser trabalhada de acordo com uma ideia de nacionalidade, ou seja, a escolha da bandeira é determinada pela necessidade de representar a ideia de um país enforcado e não a necessidade de apresentar uma bandeira meramente estrangulada; é suposto que saiba diferenciar, através de análises conceptuais e, muitas vezes, linguísticas, as várias propostas para a definição de “símbolo” e propor aquela que se adapte à Portugal na forca; mas acima de tudo, estabelecer um discurso que olhe para esta obra não como um objeto comum. É certo que ao vermos Portugal na forca não vemos mais que simples objetos retirados de contextos quotidianos (a madeira e a corda dos contextos mais particulares e a desditosa bandeira, enfim, de todo o sítio), mas a forma como são aqui combinados e apresentados ultrapassa essa noção de objeto-comum para se acercar da noção de obra de arte ou manifestação artística. Ou seja, em termos muito limpos e claros: ao vermos a bandeira de Portugal, ninguém assume que seja apenas alguns metros de tecido colorido com propósitos decorativos; a bandeira é o símbolo de Portugal e das múltiplas ideias que a partir daqui se elaboram, ou seja, ela não é apenas o símbolo de Portugal como país, mas é, igualmente, o símbolo da República Portuguesa, denunciada, à partida, pela combinação das cores do partido republicano com o brasão de Portugal. A bandeira é um símbolo nacional que é, como muitas outras coisas (e em arte, sobretudo), produzido de acordo com um entendimento cultural bastante específico, que entendeu que a bandeira da República Portuguesa deveria “profanar” a antiga bandeira da monarquia portuguesa ao aplicar sobre esta última as cores do partido republicano e, por consequência, as cores da República. Como objeto cultural, a bandeira é concebida por um conjunto de ideias que determinam o seu resultado final, o que nos permite assumir que também a atual bandeira de Portugal “profanou” um anterior símbolo nacional: os símbolos da monarquia. Mas, acima de tudo, isto para explicar que o aquilo que devemos observar em Portugal na forca não é a nossa querida bandeira a ser enforcada, mas uma representação da ideia de “Portugal a forca” e aqui reside a diferença entre ver uma bandeira (ou qualquer outro símbolo nacional) e uma obra de arte.
    Fico por aqui porque este texto está muito grande já. Beijo.

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  4. A arte incomoda. Mas não é essa a sua finalidade? Não terão os artistas liberdade criativa? Não será essa liberdade criativa que faz andar este país incongruente para a frente?… que dizer então da bandidagem que nos “desgoverna” todos os dias… dos que nos roubam diariamente com os seus ordenados de milhares!!! dos que nos “deformam” as leis e as regras a seu belo prazer… dos pobres de espirito que se escondem e escudam atrás de símbolos que eles próprios repudiam e atraiçoam conforme conveniências…

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