Fragmentos – Monte de Vénus

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«Levantar-se da cama parece-lhe, a cada dia, mais difícil. Os pés arrastem-se, as pernas ficam pesadas. Doem-lhe as costas e os ombros. Quiçá, por ter de carregar todo o peso do mundo neles. Até lhe doíam os olhos, se isso fosse possível. Uma dor alucinante, excruciante, quase mortal. Todas as manhãs era a mesma coisa mas, da mesma forma, todas as manhãs conseguia levantar-se, erguer-se e arrastar-se para a casa de banho.

Pequena e húmida, qual balneário público, era o único local onde sabia que podia estar sozinha, sem que a viessem procurar. Mas, também, nunca a vinham procurar. Porque ninguém se importava, mesmo. E isso era okay. Não precisava muito da preocupação alheia. O que queria mesmo era um cigarro. E assim foi, depois de passar àgua fria pela cara, amarrar o cabelo em mais um emaranho de madeixas no topo da cabeça, deslocou-se até à sala, desarrumada e abafada, e procurou pelo maço de tabaco. “MERDA!” pensou. Só tinha mais dois. Tinha de sair de casa, que era a última coisa que lhe apetecia. Mas, de qualquer forma, teria de sair para ir trabalhar e, se fosse comedida, ainda conseguia fazer durar aquele cigarro. Ou talvez procurasse no fundo da mala, onde provavelmente encontraria alguma ponta, algum filtro, qualquer coisa. Afinal, não eram só notas que recebia, de gorjeta. Às vezes, sem reparar, davam-lhe tabaco, pagavam-lhe copos de bebida, enfiavam pequenos sacos transparentes no soutien, com um ou dois comprimidos de MDMA ou algum alucinogéno. Por norma nem se importava, até porque provavelmente já teria cheirado um ou dois riscos nos bastidores. Mas ontem, quando tentaram “comprá-la” dessa forma, ela não quis. Estava sóbria – e era assim que se queria manter por mais tempo -, e isso fazia com que a sua visão fosse mais limpa; não gostava deles. Aliás, odiáva-os mesmo. Muitas das vezes, enquanto dançava ao colo de um qualquer, imaginava-se a cortar-lhe a garganta. Fantasiava com o sangue, a jorrar-lhe para cima, a enchê-la de vermelho escarlate, a escorrer-lhe por entre os dedos. Dedos esses que levaria, com todo o gosto, à boca e provava o sabor daquela vida, que lhe tirara a dela. Se ele lhe podia chupar a dignidade, que chupasse ela o sangue dele. Isso deixava-a excitada, embora na sua mente não goste de admitir. Mas a verdade é que deixa… Imaginar a morte daqueles porcos todos, que a procuram apenas por meros minutos, numa corrida à satisfação e que na maior parte das vezes é mais demorada do que ela gostaria.

Mas não se queixa, nem pede que entre um príncipe encantado pela porta. Sabe que a vida não é assim e que eles não existem. Pelo menos não no mundo dela, nem para o mundo dela.

Senta-se na ponta do sofá que não tem roupa e sapatos e afins, e acende o cigarro. Ainda lhe dói tudo, inclusive a alma, se é que ela existe. Sente-se cansada e pensa em desistir e arranjar um trabalho “normal”. Mas depressa, entre um bafo e outro, se apercebe que normal não é a cena dela. Ri-se. Alto e estrondoso riso, como que malvado. Normal não lhe cabe, não lhe passa nas coxas, não lhe assenta no monte de vénus, não escorre pelos seus seios. E, se for sincera consigo mesma, normal não lhe dá o kick que ela quer. As borboletas no estômago, de que as amigas e colegas tanto falam, não são nada comparadas com os milhões de formigas que lhe percorrem a corrente sanguínea. E este desconforto, pensa, do dia a seguir, vale sempre a pena. Desde que eu tenha o meu tabaco, o meu café e um gole de vodka fresca, valerá a pena enfrentar outra noite. Todos os porcos que repugna, fisicamente, mas que deseja ao mesmo tempo. Ri-se, da ironia do seu síndrome de Estocolmo, quase. Mas sabe bem assim. E, quase sem dar por isso, acende um segundo cigarro, e sorri.»

(… continua …)

 

Cláudia Valentim de Oliveira, 24.6.2014, Lisboa

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