Fragmentos: I don’t want you to adore me, don’t want you to ignore me

Ela voltara. Ela voltava sempre. E ele aceitava-a de volta, nos seus braços, onde ela pertencia. Onde ela devia estar, dormir, ficar, ser dele. A vida dela passava por ser dele. Onde ele pudesse observá-la a dormir, a ler um livro, a cozinhar, a pintar as unhas… Onde ele podia agarrá-la e fazer amor com ela, onde podia apenas ignorá-la, porque sabia que ela não ia a lado nenhum.
Chegou como uma tempestade. Como quem não quer a coisa, devagarinho. Para conversarem. E acabaram na cama. Não sabe como, não se lembra, mas sabe que fora o correto, fora impulsivo e, ainda assim, era destino.
Quando as suas mãos lhe tocaram o corpo, pela primeira vez depois de todos aqueles meses de distância, foi como se tivesse renascido. Sentiu o choque, literalmente, da pele dela na sua. Percorreu-lhe a espinha, electrocutou-o, trouxe-o de novo à vida.
Desapertou-lhe os botões da camisa e deliciou-se a olhar para os seus seios, tão perfeitos, tão naturais. Passou a mão pela curva do seio direito, perfeito. O tamanho era o da sua mão, e ele dizia para si mesmo que foram feitos à sua medida. Foram feitos para serem tocados por aquela mão, acariciados por aqueles dedos.
Na aparelhagem tocava Muse

“Can you see that I am needing, Begging for so much more than you could ever give”

Tudo estava perfeito. Os caracóis dela cheiravam a pêssegos. Era impressionante como ela conseguia sempre cheirar a pêssegos. Tal como um animal selvagem, tudo nela atraía a presa. Predadora nata, agora mordia-lhe o pescoço, cravava as unhas nas suas costas, gravava a sua assinatura na vida dele.
Ainda não tinha dito que o amava. Mas era normal, supunha. Provavelmente não queria estragar o momento. Amo-te no momento errado pode estragar uma noite. Uma vida, se o momento for muito errado. Ele sabia que ela ainda o amava. Que outra razão a levaria a voltar, a quedar-se nos seus braços, a não resistir? O amor é a única razão, pensou.
O corpo dela era delicado e, nos seus braços, não pesava mais do que um coração. Não que alguma vez tenha pegado num, mas sabia que não podia pesar mais do que aquilo. Afinal, se ela voltou por amor, fazia sentido que o peso dela fosse apenas isso: o peso do amor.
Ainda conhecia aqueles lábios, a grossura, a espessura, o gosto… Mas deu por si a pensar se eles teriam sido provados por mais alguém, no tempo que passou. Se haveria outro, como ele, que também estaria a sentir falta da doçura daqueles beijos que só ela sabia dar…
Não se permitiu pensar naquilo por mais tempo. Dedicou-se a amá-la, por muito tempo. Com calma, sem pressa, explorou todos os locais escondidos nas montanhas daquele corpo. Percorreu as curvas, os precipícios, os campos floridos… Ficou nela por muito tempo, e depois adormeceu.

I want to reconcile the violence in your heart, I want to recognise your beauty’s not just a mask, I want to exorcise the demons from your past, I want to satisfy the undisclosed desires in your heart

Quando acordou, já ela se levantara, apanhara as roupas do chão, tomara banho e estava agora a vestir-se. Na rádio tocava Black Mamba, e ele sorriu, ao entender a referência ao seu filme favorito, Kill Bill.

Ever since the day you left me
I fell apart
Cloudy days, rainy nights
Tears from my heart
I needed someone strong carry on
I needed some love but I was grown strong

Era uma mulher de gostos peculiares, via filmes de Tarantino, ouvia música dos anos 70, dançava na rua e cantava na cozinha, apenas de avental, completamente nua por baixo. Achava que o seu cabelo nunca teria solução e, por isso, não se preocupava mais com os caracóis rebeldes e com a pequena afro. Tinha orgulho nas suas tatuagens, mesmo mas primeiras, e gostava de usar vestidos cintados, de estilo vintage. Comprava óculos de sol nas feiras da ladra, porque sabia negociar. Dizia que os óculos que tinham passado por outras mãos, tinham mais história. E de nada lhe interessava ter algo novo, da loja, que não tivesse vivido nada ainda. Queria algo usado. Com bagagem. Como ela, pensou. Algo que tenha bagagem como ela.
Ao som daquela música de fundo, cantarolava e ia-se perfumando, vestido, penteando o cabelo… Tudo com a maior elegância, tudo feito ao pormenor, ainda que, a olhos alheios, parecesse tudo à toa. Uma mistura de desordem e caos.
(…)
To be continued…

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Cláudia Oliveira, Lisboa. 02.07.14

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