Dá jeito?

O amor hoje tem outros contornos do que tinha há tempos atrás.
Hoje, “ama-se” e está-se numa relaçáo porque dá jeito, porque é mais útil e cai sempre bem.
Amamos com aspas, porque não é de facto, amor. É uma condição fácil e que se adapta à nossa vida. Já não amamos “apesar de”, amamos juntando o “util ao agradável”, e fazêmo-lo porque nos facilita aspectos diversos da vida.
Para mim, o amor nunca foi um facilitismo nem uma condição de me ajustar alguma situação. Eu ainda amo apesar de. Apesar dele viver em Lisboa e eu no Algarve. Apesar de termos feitios diferentes. Apesar. Porque vale a pena, não porque me dá jeito.
Há casais que estão juntos porque dá jeito. Porque podem dividir as contas no final do mês, porque têm com quem conversar durante a novela da noite, porque podem levar plus one para os jantares da empresa, porque podem mudar o status do facebook.
Juntam-se por comodidade e, mais tarde, ainda se admiram porque não dá certo. Porque é que as discussões não têm fim e parecem não encontrar solução. Porque, como já disse algures, o amor sustenta o prédio da relação e, sem ele, a comodidade nada faz. O hábito não ajuda a resolver problemas porque aquilo que cria a vontade de passar por cima dos incidentes, olhar os pontos fortes da relação e pensar que, realmente, vale a pena uma vida a dois, é o amor. Não é a junção das faturas da água e da luz. Não é ter apenas alguém que nos aqueça os pés, porque não sabe bem quando não queremos essa pessoa para o resto dos nossos dias. Tem de ser alguém que nos vejamos a envelhecer com. O cliché do “vamos envelhecer juntos” torna-se verídico porque, de facto, é esse o goal final. Construir um império com essa pessoa, passar todas as fases e, finalmente, culminar na velhice a dois. Partilhar a mais importante e mais frágil etapa da vida. Aquela que por vezes se torna tão solitária, para a maioria de nós. E, mesmo que essa profecia não se cumpra, hoje, aqui e agora, na relação presente, o segredo é imaginar essa vida a dois, enrugada e com viagens pós-reforma. É isso que eu quero. E não é nada cómodo, diga-se, passar todas as fases com alguém que não suportamos, com alguém que nos irrita e que só serve para nos ajudar.
O amor, o real, o de facto, ajuda, ampara e ainda tem a benesse de ser bom, bonito, de nos encher de borboletas no estômago, de nos dar ânsia pelos dias que virão.

Cláudia de Oliveira, Quarteira. 24.7.14

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