As regras da sensatez

Rui Veloso dizia, em canção, que não era seguro voltar ao sítio onde o coração já foi feliz. Eu discordo e a minha experiencia pessoal discorda. O local onde fomos felizes, mais do que a pessoa com quem fomos, é uma das grandes maravilhas da vida. Passar por locais antes amados e amar de novo. Sentar em bancos velhos, com cheiro a novo. Beber um vinho que nos era sabido de cor, depois de meses de abstenção. Comer aquela moamba que sabe a casa da mãe, cheirar a maresia de Espinho… Voltar ao local que o coração adotou como casa, é voltar a ser feliz. E qual é o mal de reviver a felicidade? Nenhum.
Discordo do Rui, porque o Rui acha que voltar ao local onde fomos felizes é enganar o coração; é dizer-lhe “podes voltar a ser feliz aqui, como antes” quando é provável que a profecia do antes não se concretize. E sim, de experiência própria e dolorosa, sei que nem sempre voltar ao que nos fez feliz, vai trazer felicidade de novo. Nem sempre trás. Mas voltemos sempre. Mais uma vez, mais duas, mais cinco se for necessário. Bater com a cabeça na porta também faz parte da vida, para percebermos que, nem sempre, funciona como queremos. E isso é bom, é okay. Mas quando funciona… Quando chegamos àquele local e batemos à porta e esta nos é aberta… A felicidade, a loucura, o contentamento…. Não há explicação. E somos, novamente, felizes. Porque não há só uma hipótese de felicidade em cada casa, em cada porta. Existem várias, se assim quiserem ambas as partes. Se acharmos que vale a pena, se for o nosso es muss sein.
A esperança é renovada nessa causa, neste mundo, nessa pessoa, nesse local, na vida. A esperança é partilhada com quem estamos, espalhada num sorriso.
Isto, claro, associado a saber quando desistir, se a porta não se abrir. Saber parar de bater na mesma tecla, sair da cepa torta. Procurar novas portas, novos lares para o coração descansar, ser feliz. Encontrar uma nova paz.
Voltemos, sim, ao local onde já fomos felizes, para saber se o podemos ser de novo. Dar hipótese à felicidade, cada vez mais ignorada e flagelada. Cada vez mais grata que a escolhamos para a tomar, de braços abertos.
Voltemos ao local onde fomos felizes, aos braços que nos abraçaram e ao cheiro que ainda se encontra na nossa memória poética. Voltemos e fiquemos lá. Ou voltemos, fiquemos e saibamos sair do ciclo vicioso.
Não há bons nem maus locais, certos ou errados. Há locais de aprendizagem e portos de atracar, de ficar… Casas para morar.
Eu voltei ao local onde fui, em tempos, contente. E hoje, neste local, sou feliz. E contente e realizada. E fico bem, porque estou em casa.
Bati à porta certa.

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