Dar e Receber

É de impressionar o egoísmo com que vivemos rodeados de, hoje em dia. Já não se faz nada por boa-vontade ou pelo karma que seja. Não, hoje em dia, é tudo um quid pro quo exacerbado, onde apenas fazemos as coisas porque esperamos algo em retorno. E nem sempre é consciente mas, no fundo, se não recebermos nada, fica-se com a sensação de que as pessoas não apreciaram o nosso gesto. Porque a gratidão já não se usa e, de facto, até nem paga contas nem nada. O favor pendente que fica para nos ser feito, mais tarde quando precisarmos – porque, acreditem, vamos sempre precisar -, já não vale de nada. Gosta-se mesmo é que se ofereça algo em retorno, ou se pague “qualquer coisinha”. Nem que seja porque calha bem. Calha bem. Isto dá-me piada. Vamos a ver, o “favor” só nos foi feito porque fica bem visto fazer, da mesma forma que, depois, fica bem ao que beneficiou do favor dar algo em retorno.
Agora os favores são pagos. Temos de pedir orçamento primeiro. Porque não é uma ajuda, é um negócio. E isto não deixa ninguém de lado. Amigos amigos, negócios à parte. Quer sejam bons amigos ou familiares.
O favor já não se cobra noutro favor. Não. Hoje ajuda-se, mas com amnésia de que um dia podemos ser nós a precisar dessa mesma ajuda. E sim, de facto nem custa nada dar qualquer coisita, ou pagar um lanche, ou um jantar, pela boa-vontade e disponibilidade de quem nos ajudou – afinal, não é obrigação de ninguém dar-nos a mão. Mais uma vez, fica bem dar algo em troca. Oferecer. Nesta sociedade materialista, o dar, o ter algo material significa tudo. Aparentar mais do que se é, já que os afetos e o valor não podem ser mostrados nos dedos ou no pescoço, da mesma forma que anéis e colares podem. Aparentar.  A viver de aparências andávamos todos – salvo seja – há uns anos e agora as coisas não resultaram como deviam.
Está certo, se calhar eu devia materializar mais o meu mundo e oferecer mais prendas, mais regalias, mais objetos para encher espaços e corações. Aparentar. Devia também reclamar mais prendas para mim. Mas eu vim de uma educação em que me era ensinado que o ter e o ser eram coisas distintas e, ter muito não era o mesmo de ser-se muito.
Se calhar, se eu der mais coisas, as pessoas de facto vão achar que eu me preocupo mais e gosto mais delas. É isso que importa, não é? Dar, oferecer.
Souvenirs inúteis que podem ser encontrados em lojas-do-chinês, mas que fica bem oferecer porque estivemos em lugar x ou y e, sabe-se lá, ao não levar nada as pessoas podem pensar que não nos importamos.
E, de facto, não me importo. Não, não me importo em não dar prendas, não oferecer coisas. Importo-me em saber que estou lá e ajudo, se necessário, da forma que conseguir. Sem cobrar nada em troca, com a consciência de que, hoje ajudo, amanhã preciso de ajuda. Não me importo de não dar coisinhas que ficam bem. Porque dou melhor e mais, que não se vê e não tem preço nem etiqueta para devolução. Não foi comprado em saldos porque a gratidão, a amizade, o amor e a predisposição, a chamada boa-vontade não se compram nem se vendem. Acreditar no karma bom, acreditar que fazer o bem nos trás o bem.
Mas, claro, eu sou idealista e sonhadora. Porque ninguém quer saber de uma mão estendida, se na palma não estiver uma oferenda.

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Cláudia Valentim de Oliveira. 31.7.14, Quarteira.

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