Freudiando

Eu não sabia amar um homem. Ou melhor, eu não sabia que sabia amar um homem. Que era capaz daquilo que vemos nos filmes, da paixão arrebatadora, do desejo sem fim, da cumplicidade, dos momentos a dois, perfeitos e românticos. Eu não sabia que isso existia dentro de mim, essa capacidade de me dar, de receber tanto sem achar que não era merecedora.
E, de facto, eu estava enganada. Eu sabia amar um homem. Eu sabia dar tudo de mim a um homem, gostar dele acima de todos os outros, olhar para ele e ver o homem mais importante da minha vida, o meu modelo, a minha razão de viver e querer viver durante muito muito tempo, apenas e só para que pudesse ficar ao seu lado. Eu já sabia amar um homem antes de saber o que era, de facto, essa coisa do amor. Para mim amar sempre me fora intrínseco, sempre fizera parte do meu ser. Mal me tocaste, fizeste nascer em mim essa coisa que cresce dentro de nós e nos consome desse nome: amor.
Ah, eu aprendi a amar um homem com o meu pai. Eu amei o meu pai como uma menina ama um homem com todo o seu afeto. Dei-lhe tudo o que o meu coração permitiu, todas as vísceras e o sangue que jorrava eram teus. Foste o primeiro homem que amei e o que me ensinou a amar todos os outros (ou o outro). Foste a primeira pessoa que soube abrir o meu coração ao perdão incondicional, ao amor pela vida, à irracionalidade de querer que durasses para sempre. Foste o meu primeiro modelo, o meu desejo de, um dia, ter alguém na minha vida que fosse igual a ti, que me tratasse como tu, que tivesse o teu sorriso.
Não te amei de forma freudiana, pois nunca te vi assim. Mas sempre te amei com todo o poder do meu coração. E esse amor que me incutiste em tantos anos de vida em comum, ensinou-me a amar mais e melhor os outros. Hoje amo sem restrições mas com fronteiras. Não amo qualquer coisa, qualquer pessoa. Sou seletiva. Tens de gostar, tenho de achar que ias gostar da pessoa. Que, como eu, também ias amar.
E ensinaste-me a alquimia do amor. Contigo, em ti, achei a minha pedra filosofal. Hoje sei que, afinal, tenho em mim a capacidade de amar um homem, que amo a cem por cento porque aprendi contigo. Sei que me dou muito porque deixei todos os pudores para trás. Dou-me aos outros porque já não me permitem que me dê a ti, mas o meu teimoso coração continua a ser teu.
Com o passar destes anos em que não te tenho, nem te vejo, aprendi a amar outro homem que não tu. Mas sempre que amo, que me dou, sei que era capaz de um pouco mais, um pouco melhor, porque podia tê-lo aprendido contigo.
Hoje sei amar os seres que o meu coração adota como seus e sei que tenho esse dom. Sei que até sou boa nisso. Talvez nem tanto a mostrá-lo, mas ainda há passos a dar.
O meu pai ensinou-me a amar, amando-me. E deu-me o melhor presente da vida, além da própria vida. E nunca há-de ser demais dizê-lo, escrevê-lo. Porque, com o meu pai, aprendi a amar e hoje sou feliz no amor porque sei, já sei, que amar um homem requer cuidados, requer atenção, requer perdão, requer por de lado, muitas vezes, a nossa razão em prol da razão dos dois.
Hoje sinto-me capaz e merecedora de todo o amor que sinto e que recebo. E por isso, hoje sou feliz. E continuarei a sê-lo, em honra do amor que me deste. Por todo o amor que me incutiste. Por todo o amor que recebo ao olhar para ele, a tua incarnação (se me permitem acreditar, o que não o faço). Aquele ser que existiu depois de tu existires, mas que trás tanto de ti nele. Naquela forma de levantar a sobrancelha, tão típico do meio-quilo. Aquela gargalhada, que irias adorar. Tudo o que eu amei em ti e que hei-de amar nele. Tudo o que fez de mim a filha que sou, a tia que sou, a mulher que sou. A futura esposa, a futura mãe…
O amor que o meu pai me deu, é hoje o tipo de amor que eu entrego. E não daria mais e melhor sem esse homem na minha vida. Afinal, a coisa mais importante para uma mulher deve ser sempre esse primeiro homem que amamos e que nos ensina a amar. Se ele o fizer bem e nos ensinar bem.

Cláudia de Oliveira, 22.8.14

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