A caminho dos doze

Nasceste ontem. Ontem, por esta hora, estava eu a olhar-te pela primeira vez e a pensar que bonito que eras. Que eu, que nunca achara um bebé recém-nascido bonito, que os achava todos iguais, enrugados e inchados, eu te achava a coisa mais bonita de sempre. Ontem, toquei-te pela primeira vez e, pela primeira vez em toda a minha existência, senti aquilo a que alguns chamam de amor ao primeiro toque. Mais do que à primeira vista, ontem senti que, naquele primeiro toque, naquele primeiro enrolar de dedos, eu te amava mais do que a vida me ensinara a amar. Ontem, vi-te mamar pela primeira vez. Vi acontecer a maravilha da vida, e ainda nem tinhas uma hora de vida. E senti medo, como nunca havia sentido antes por ninguém. Medo que me congelou o sangue. Senti medo de pensar o que te podia acontecer, agora que estavas cá fora, connosco, neste mundo de loucos. Senti-me a pessoa mais assustada do mundo e, ao mesmo tempo, contraditoriamente, senti-me valente e corajosa. Eu soube, ali naquele momento, que daria a vida por ti. Eu, que sempre fora egoísta a ponto de valorizar a minha existência acima de qualquer outra, propus-me, ontem, a dar-te a minha vida se tu ma pedisses.
Nasceste ontem e eu vivi a maior alegria da minha vida. Senti aquele nó na garganta, típico de quem espera horas a fio num corredor de hospital desabitado, à espera da mensagem que dissesse “já nasceu“. E, quando finalmente a recebi, conheci o nirvana só antes descrito nos livros e cantado nas músicas. Fui ao céu e a nuvem mais alta era minha. Lá do alto, senti-me flutuar, leve de alegria e contentamento. Sabia que o pior já tinha passado, estavas cá fora e bem, finalmente.

Agora vou tentar explicar o inexplicável. Porque por muito que tente, nestas vinte e quatro horas em que existes em mim, não consigo encontrar as palavras que descrevam o que senti quando nasceste.
Eu já sabia que ias existir, desde o momento em que a gravidez fora anunciada. Não eras novidade, porque passei nove meses impaciente à tua espera. Para saber como ias ser, de que cor seriam os teus olhos, qual a forma do teu nariz, se tinhas todos os dedos das mãos e dos pés. Vivi num tumulto de ansiedade durante nove meses, porque nove meses é muito tempo a ansiar por algo. Portanto, eu já sabia que tu ias nascer, essa era a minha realidade, deste lado do útero. Mas a sensação que eu senti quando realmente nasceste, quando recebi a mensagem, é indescritível. Porque, naquele momento – e eu não me hei-de cansar de dizer isto – a minha irmã, a mulher com quem eu crescera durante vinte anos, a pessoa com quem tantas vezes eu discuti, com quem tantas vezes eu partilhei segredos e memórias, estava a ter um filho.
Vamos lá ver: eu sempre soube que ela ia ter um filho, a partir do momento em que recebera a notícia. Mas a concretização desse momento é surreal. Quando recebi a mensagem e enquanto desesperava no corredor branco, e absorvia o cheiro a éter das paredes, eu sabia que, algures num daqueles quartos de hospital, a minha irmã estava a trazer ao mundo uma criança. Estava a assumir-se mãe, mulher. E na minha cabeça isso era algo maior que a própria vida, essa coisa de dar uma vida. Continua a ser.
Ela estava a ser forte, naquele momento, e eu projetei a minha fraqueza nela, ao pensar que ela não seria capaz. Mas foi. E cá fora estava à minha espera a maior maravilha que eu presenciei. Vindo dela.
Portanto, a consciencialização de que a minha irmã tinha dado à luz, foi a alegria mais inconcebível que eu experienciei na minha vida e que me custa a explicar e colocar em palavras.

Ontem vi-te e vi-a, ambos pela primeira vez. Nunca antes havia visto tal olhar num ser humano e nunca nada me tocou tanto. Ainda hoje me emociono de pensar e falar sobre isso. Ontem vi um olhar cansado, um olhar sofrido. Uma mulher que tinha cumprido o seu objetivo final de vida. Que tinha lutado para ter aquele ser nos seus braços e que agora ali estava, descansada mas dorida, com a certeza que, pela primeira vez na vida, tinha algo que era completamente seu. Nada nem ninguém lho iria tirar. Tinha ganho o direito de reclamar posse daquela pessoa, tinha feito nascer algo. Assim como eu, mas de forma diferente, também ela encontrara o nirvana. Quiçá o nirvana final, aquele pelo qual eu passarei um dia, o exponente máximo do que eu senti. Também ela tinha atingido a reta que marca que a sua vida, não importa o que aconteça, tem significado. Que tudo até ali valera a pena, por todos os dedinhos que tens e aquele nariz pequenino e o teu cheiro a pessoa nova.
Ontem fui a pessoa mais feliz de sempre porque ontem me permitiram sentir um oceano de emoções que eu não sabia que existiam. E eu senti na pele o que é sofrer e amar e ter medo e desejar o melhor para alguém, independentemente de todas as outras condições.

Só que ontem não foi, realmente, ontem. Ontem foi há um ano atrás e tudo o que descrevi vem com doze meses de delay. Ontem pensei em como o tempo passa rápido. Porque não foi ontem, embora pareça, mas há quase um ano que existes. Que és pessoa, mais do que apenas imaginação.
Passou um ano e, se alguma coisa mudou, foi o amor que cresceu contigo. Por cada centímetro, por cada dentinho, por cada risada.
Por teres nascido, quase há um ano atrás, eu nasci também. És a razão de eu, finalmente, saber o que é gostar de alguém a ponto de abdicar da vida. Gostar de alguém a ponto de não dar de tudo, mas dar tudo.

Sou uma tia feliz e claramente contente nesta condição. Grata por tudo, por este ano preenchido e este coração cheio.
Já passou quase um ano, já és um homem feito e eu estou constantemente orgulhosa e impressionada pelo que vais aprendendo a fazer, dia após dia.

Devia guardar este texto para dia 17, porque tu não nasceste ontem, mas tem dias que o coração fala mais alto.

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Doze meses atrás

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Photo cortesy: Cláudia Oliveira © 2014 all rights reserved

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