Castelos de Papel

image

Eu amo-te. Desde o primeiro dia, na inocência dos meus dezassete anos que te amo. Não o sabia, não tinha conhecimento. Como poderia ter, também? Não sabia o que era amor, amar ou ser de alguém. Fui tua, antes de ser de mais alguém. De coração, dei-me de bandeja aos teus braços e, desde então, “eu sempre fui só de você, você sempre foi só de mim”.
Não tinha como saber, na altura, no auge do meu egoísmo, que iria retornar a casa, ao cheiro familiar e característico do teu ser. Nunca pensei por um segundo, depois de seguirmos caminhos diferentes, que o meu futuro passasse por ti. Que fossem os teus braços o trono de ferro do meu reino, onde vezes sem conta me deitei, me demorei no conforto, na sensação de pertencer, onde vezes sem conta chorei e me consolei. Que fossem os teus lábios a fonte da juventude, de onde eu bebo as forças do dia a dia. De onde eu retiro ânimo para continuar.
Que a tua voz continuasse familiar ao longo destes anos que passaram entre nós. Que as nossas neuras e os nossos conflitos virassem lições que ficam e nos ensinam a querer, ainda mais, ser um do outro. Aprender um com o outro, amar um ao outro.
Para sempre, diriam os românticos incuráveis. Eu digo que se existir essa linha temporal, é contigo que quero passá-la. Contigo que eu quero conhecer as desventuras do amor, a dor e a angústia de amar. É contigo que eu quero viajar o mundo, conhecer culturas e enfrentar desafios linguísticos. Dormir ao relento, comer debaixo da ponte. Por ti, não daria a volta ao mundo. Ficava. Ou pelo menos ponderava ficar.
Se me dissessem, quatro anos antes de hoje, que eu iria ser assim, lamechas ao ponto da combustão, não acreditava. Diria que era mentira. Como poderia eu ser assim? Transformar-me a este ponto, abdicando da minha singularidade e tornar-me peça na engrenagem desta máquina feita a dois? Não seria possível. Mas é, está a ser e, há ano e meio que é. Dezoito meses em que olho para o lado e sei que não caminho sozinha. Que tenho um peito onde descansar a cabeça, depois de um longo dia. Que encontrei a paz, na forma de pessoa. Que, afinal o lar não é um lugar, mas uma pessoa com quem partilhas vários lugares. Que, aqui ou na conchichina, desde que contigo, estou em paz e estou bem.
Eu, que cresci na ilusão de um amor de conto de fadas, perfeito na sua harmonia, cheio de gestos puros e doces, descobri contigo que o amor nos pode magoar. De boca cheia, gritei a quem quisesse ouvir que nunca na vida um homem me iria maltratar, nunca aceitaria que me gritassem, que me insultassem ou que me voltassem as costas, mais do que uma vez. De boca cheia e peito insuflado, dizia que o amor verdadeiro era o perfeito, aquele em que estavam incluídos pequenos almoços na cama, pedidos concedidos, vontades feitas. Zero discussões, porque quem ama não discute. E, de facto, naquela que foi a nossa primeira discussão, senti o tapete que me fugia debaixo dos pés e senti que, descalça no chão frio do quarto, não tinha para onde ir. Na minha inocência, toldada pelas histórias de embalar que ouvia na TV, achei que aquele era o nosso fim. Que depois daquela discussão, que não era nada comparada com os pequenos arranhões do dia a dia, acabaríamos por nos odiar pelas coisas ditas, acabaríamos por nos desprezar pelos atos cometidos, e seria o fim de nós. Isto há um ano atrás, quando ainda na frescura dos nossos seis meses, éramos felizes sem o desgaste da contradição.
Pelo contrário aprendi que, a ser possível, te amei mais depois daquela troca de palavras lasciva e venenosa. Depois daquele surto, descobri que afinal era possível que ainda te amasse. Como, pensava eu, poderia amar quem me tenha feito chorar? Terias tu esse direito? Teria eu o direito de te maltratar e de ser maltratada? Poderíamos sobreviver a esse impacto? Oh sim, sobrevivemos. Aliás, a ser possível, saímos imunes e esterilizados. Nunca mais repetiriamos aquela cena e íamos ser felizes até ao por do sol das nossas vidas em comum. Como me enganei. De facto, piorámos a coisa, elevámos a barreira e tornamos a pisar a poça, só que desta vez era mais funda. E custou vir ao de cima respirar, quando era mais confortável ficar submergida a remoer nas acusações e nas coisas que não podiam ser desditas.
Mas viemos ao de cima, no final. Deste-me a mão, que eu de bom grado mas hesitante aceitei, e puxaste-me para terra firme. Ao beijar-me a testa e ao declarar que, ainda assim, me amavas, saraste-me a ferida, sugaste o veneno e, juntos, recuperámos. Como temos recuperado sempre que caímos em poço fundo.
É disto que somos feitos, de carne e osso. Os dois. E não é um argumento que se intensifica no calor da discussão que acaba com o que levou dias e dias de boas coisas a construir.
Dos filmes de amor perfeitos, em que a princesa sempre acabava a bem, descobri que faltava mostrar o lado em que a princesa chorava na cama porque o príncipe a tratara menos bem. Ou os momentos em que ele, magoado, lhe dava razão porque, no final de contas, ficar junto era melhor e mais importante do que um desentendimento.
Fomos tão felizes e tão infelizes nestes meses, neste ano e meio, que não me vejo desacordar com mais ninguém. Não conheço mais ninguém cujo peito seja melhor do que a minha almofada favorita. Não quero mais nenhum ombro, mais nenhuma mão, mais nenhuns olhos a olharem para mim.
Na minha cama só cabes tu e no meu peito só te quero a ti. Discutir, chorar e gritar, que seja por ti, contigo, porque depois, quando as tréguas forem declaradas, mostro a minha bandeira branca ao único inimigo com quem quero fazer pazes. O único que quero lutar por.
Foram meses difíceis porque lutámos esta luta sempre em campos de batalha longínquos, onde eu estava num lado e tu noutro, a quilómetros de distância, sem nos podermos ver ou tocar. Torna difícil amar alguém que mal vês, que mal tocas e cuja cara só tens vaga recordação. Nas semanas que nos separavam, custava acreditar que tudo ia valer a pena, porque o amor ficava turvo e por vezes achei que construía o meu futuro em fundações de algodão doce. Hoje, porém, sei que o construí em aço maciço que demorou muito a solidificar. Mas que agora aguenta trovões, tornados e ondas gigantes. Mas que, de alguma forma ainda é de papel. E onde ainda escrevemos poemas a lápis, em esboço, com medo de passar a caneta um sonho que ainda parece demasiado imaturo para dois jovens apaixonados. Mas está escrito, a ideia está cá fora e, demore o tempo que demorar, vamos ‘passando a limpo’ histórias, vivências e aprendizagens, sem mudar um ponto ou uma vírgula, porque sabemos que, naquele rascunho a lápis, está o nosso futuro traçado. Onde o príncipe e a princesa dos livros não existe, assim como não acordo todos os dias com o pequeno almoço na cama, nem recebo velas e flores. Mas a minha passadeira vermelha é-me estendida todos os dias, ao me ser permitido acordar ao teu lado. Onde a minha coroa brilha, no reflexo destes seis meses de vida em conjunto, em que pude viver contigo, partilhar contigo, acordar e adormecer contigo, aqui ou em Lisboa. Aqui ou na China.
Estou grata por esta viagem, estou grata por me ser concedida a oportunidade de trabalhar nesta relação contigo, de me ser explicada esta forma de vida, de me ser dado o prazer de privar com alguém com prospecções de passar a vida juntos.

I am a woman in love, and I do anything to get you into my world (…)

Ainda havemos de cair muitas vezes, lutar guerras desiguais, mostrar as garras e as presas. Ainda havemos de ir lamber as feridas, cada um para o seu canto e rosnar a nossa tristeza. Mas antes que o dia se ponha, eu sou a leoa fiel que acordou do teu lado e para o teu lado hei-de voltar. Disso eu tenho a certeza.
Depois disso, cicatrizamos as nossas feridas, vestimos a nossa armadura, e enfrentamos mais uma luta, lado a lado. Mãos dadas e confiantes. Porque esta vitória só se faz a dois.

Cláudia de Oliveira.
Setembro 2015

image

image

Advertisements

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s