[és o meu final feliz]

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Eu já tive medo de envelhecer. Confesso que as rugas me assustavam, a solidão e o facto de, tão notavelmente, a vida nos estar a esvair do corpo, levando consigo a vitalidade e a juventude que sempre fizera parte de nós. O nosso corpo desobedece-nos e não nos deixa subir aquelas escadas com a mesma facilidade, a nossa pele torna-se enrugada e as nossas mãos e cabelos enfraquecem.

Eu tive medo de envelhecer e, confesso, é algo que ainda me deixa meio reticente, saber que vou passar por essa fase (ou assim espero). Mas já não me assusta tanto. Agora que sei que não a vou passar sozinha. Que sei que tenho com quem ir a cruzeiros pelo mediterrâneo, a quem fazer chá nas noites frias de inverno, e enrolar-me a ver Seinfeld, ou Friends pela milésima vez, desde que éramos jovens. Sei que vou passar a velhice a lembrar-me dos tempos de míuda, onde no auge dos meus twenty-something, onde implicava contigo por coisas pequeninas, mas que me faziam sentir viva. Hei-de me lembrar de todas as discussões que temos, com carinho. Pegar-te na mão e dizer “afinal valeu a pena, chegámos aqui. Estamos aqui, e ainda temos tanta coisa para fazer”. Quero que sejas a pessoa que eu conheço tão bem como me conheço a mim, quero saber quem eu sou, no nosso conjunto, quero viver com os teus defeitos, sabê-los tão bem que passam a ser parte de mim. Quero criar um certo hábito, mas manter viva a chama do amor e da paixão. Olhar-te nos olhos e saber, continuar a saber, que fomos feitos um para o outro; que estavas certo, naquela noite em que eu estava na feira de Grândola e tu em Lisboa, em que falámos sobre seres a pessoa certa. Na forma como eu duvidei e achei injusto eu só ter direito a ter uma pessoa para mim, que fosse feita para me pertencer. Era burra, na verdade, quando me achei azarada por só ter direito a uma pessoa. Hoje, finalmente e felizmente, sei que não preciso mais do que uma pessoa, mais do que esta pessoa. Hoje apercebi-me que és a pessoa certa, e que todas as voltas que a vida dá são apenas para rodarmos o globo e saber que, afinal, o longe fica mesmo aqui pertinho, e que a eternidade está ao alcance da nossa mão. Não precisei de ir muito longe, mas ainda me afastei um pouco, até ver que nunca foi necessário sair do lugar onde o meu coração sempre estivera.

As coisas que nós não sabemos quando a inocência do querer ainda nos abraça.

Mas toda essa tolice irá passar. Daqui a anos, não serei mais a chata que repete os erros que sabe que tu não gostas. Não serás mais aquele que me enerva… Seremos dois, na velhice da nossa vida, ainda cheios de muito para dar e receber, um do outro.

Um dia, depois de uma vida cheia de conquistas juntos, vamos ser o final feliz um do outro, que só culmina uma vida que eu ainda não estou preparada para viver sem.

Quando eu for velhinha, ao teu lado, hei-de escrever sobre nós dois, como tenho feito desde que existimos. Já lá vão quatro anos desta coisa, sem querer marcar datas no calendário. Mas já te conheço há quatro anos. E não posso dizer que não queira que esses quatro se quadrupliquem pela vida fora.

Já não tenho medo de envelhecer, porque não vou envelhecer sozinha. Sim, as peles caem, desmorecem, o humor torna-se mais moderado e a vida, essa, escorre pelos dedos. Mas como sei que vamos andar de mãos entrelaçadas, numa rua pacata a passear o cão e o netinho, o que escorre fica connosco, preso no abraço dos dedos.

Cláudia de Oliveira, 22 anos, Faro.

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