The perks of being a black cashier, [pt. I]

Há coisas que parece que só me acontecem a mim, atrás daquela caixa. Ora, se no passado foi uma menina inocente que me perguntou porque é que eu era preta, agora as coisas andam sempre a somar, e vale sempre a pena elevar a barreira, não vá eu ficar aborrecida, claramente.

As pessoas devem pensar que dizer tudo o que lhes vem à cabeça é correto, e que ninguém pode ficar chateado/ofendido com isso. Porque, lá para eles, é a coisa mais inocente do mundo.

Depois, há coisas que nem são ofensivas por aí além, chamo-lhes mais maneirismos, mas que, ao serem ditos over and over again tornam-se um bocado aborrecidos. É como aquela em que os clientes querem desfazer-se das moedas de cêntimos e me dizem “ah tome lá menina, estou farta de ter estes pretos na carteira”. É só uma forma de falar, claro que não é para ofender. Mas é aborrecido ouvir isso, todos os dias. Até porque, estando a referir-se a moedas sem ou com pouco valor, a denominação de pretos está agarrada a algo com pouco valor (aqui a meu ver).

Mas depois, há comentários com mais maldade que isso. Ora passo a contar a pequena aventura que conheci, semanas atrás.

Estava eu muito entretida, certa manhã, a ajudar os meus colegas do Take-Away, quando me aparece um senhor, de idade para saber o que diz (assim até para lá dos 60, muito provavelmente) que me pede um frango assado. Mas um frango mal passado, quase cru, que ainda não tinha saído da máquina. Para sua justificação, ele diz que 

«Quero o frango branquinho menina, quanto mais branquinho melhor. Farto de pretos estou eu, menina. Andei a minha vida toda com os pretos, lá em África, no meio do mato. Agora não quero coisas pretas (…) ainda tive de acordar ao lado de uma preta umas vezes»

Eu ri (lembrei-me de que estava a trabalhar, e não convinha fazer o que me apetecia). E respondi:

«Ah, mas ninguém o obrigou a dormir com a preta, aposto que haviam lá muitas brancas» disse, a rir.

«A menina sabe lá o que a necessidade faz uma pessoa fazer. A necessidade é que me obrigou.»

«Pois, olhe deixe lá, foram algumas vezes. Eu cá gosto muito da minha cor». Já estava irritada.

«Ah, isso diz você agora, menina. Vai ver que um dia muda de ideias. Ora dê cá o frango.»


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