[partiu. parti-me.]

Fotografia0159

que merda.

foram quatroze anos, quatorze. que merda enorme, não sei sequer como reagir. e eu já estou habituada à perda, já perdi tanta coisa. e de todas as vezes, custa-me um bocadinho mais.

o nome dela era reguila. aliás, o nome dela é reguila, e vai continuar a ser, na eternidade do meu peito. reguila porque ela sempre fora malandra, travessa e rebelde, desde o momento em que o meu pai (oh, a perda, as grandes perdas da vida) a encontrou perto de um caixote do lixo, há quatorze anos atrás.

isto é tão duro e tão injusto. fazerem-te passares os melhores anos com alguém e depois tirarem-tos assim, como quem puxa o tapete debaixo dos teus pés e te deixa na merda.

eras pequenina, pequenina, quando te conheci pela primeira vez. cabias numa palma da mão do meio-quilo, de pequenina que eras. assustada, lá te deixaste adormecer na sala, dentro de uma caixinha de madeira onde cabia uma garrafa. eras pequenina, frágil, abandonada. mas ele achou-te, ou tu achaste-o a ele, e ficámos família. e família fomos desde então. onde quer que fôssemos, foras connosco. passeaste, viajaste, correste frança, marrocos, espanha e andorra, sempre no panda, aos nossos pés. acampaste, deste mergulhos no mar.

tiveste filhos, muitos filhos. nenhum ficou connosco, poucos sobreviveram ao destino que hoje te leva. te levou.

a vida é isto, um monte de injustiças que acontecem às pessoas boas. tu eras boa, tu valias a pena. ele era bom, ele valia a pena. ambos precisavam ter ficado cá muitos mais anos, connosco; comigo.

vou ser muito egoísta porque eu preciso de egoísmo neste momento, porque eu preciso de reclamar esta dor.

lembro-me de ter prometido que nunca mais iria perguntar “porquê?!“, porquê tu, porquê a mim, porquê a nós, mais uma vez, que já perdemos tanto… mas não consigo evitar, hoje, a pensar em todos os porquês… e eu, que mais uma vez não me despedi, não estava lá, não fiz uma última festinha, não dei um último beijinho. é este o meu karma, o arrependimento, o vazio que fica quando queres só mais uma vez e sabes que nunca a hás-de ter.

foste e sempre serás a nossa “niguilas”, a nossa bebé. eras bebé quando o eras, e foste bebé depois de velhota. já com quatorze anos humanos, sempre cheia de vida, mesmo quando te faltava a força.

não quero generalizar e dizer que a vida é uma merda, apenas porque aconteceu merda hoje. mas sim, a vida neste momento é uma merda, especialmente quando tem corrido bem, pela primeira vez em muito tempo.

ainda há pouco liguei, à mãe, e perguntei por ti. “está bem, está aqui comigo. está a melhorar.” horas depois, foste. e nunca mais vais voltar, latir, morder, rosnar.

e eu sinto um nó tão grande no peito, na garganta, no estômago. é a maior dor que eu senti nos últimos cinco anos. é a maior dor de todas, perder. perder-te.

falta muita coerência, aqui. porque o coração está incoerente e arrítmico. salta batidas, bate muito forte.

tenho umas saudades gigantes de ti, reguila, e foste nem há horas.

a vida é uma merda, é injusta, é lacerante. faz-te muito feliz, por quatorze anos, e depois ensina-te a ser forte, da pior maneira possível.

e eu já tenho medo. medo de perder todas as coisas que amo. é inevitável como a morte. e todos hão de morrer. e eu vou perder, mas eu perco muito, queria não perder tanto, tantas vezes. gostava de não saber o que isso é. o que é ser inocente face à morte.

faz-te forte, faz-te firme. tive sorte durante quatorze anos, tive-a a ela, a melhor amiga que uma pessoa podia pedir. soube ouvir melhor que ninguém todos os meus desabafos, aturar as minhas zangas, e tantas vezes me lambeu as lágrimas. sofreu connosco a dor de perder o meio-quilo, confessamente o seu favorito. aquele que, há nove anos a retirara das latas. lhe dera comida. a trouxera para casa.

criámos um lar, fomos família. e eu odeio perder a família. odeio perder pessoas, odeio desocupar lugares do meu coração, trocá-los por memórias.

a vida é uma merda, na forma como nos ensina a crescer. odeio crescer. quero ser menina, ter oito anos e receber uma cadela pelo natal. pequenina que cabia numa caixinha de madeira de uma garrafa de vinho do porto. pequenina assim. cheia de lombrigas e fome e amor, muito amor para dar. deu tudo, disso tenho a certeza. deixou-nos ainda cheia de amor, porque os animais só têm amor para nos dar, renovável, como uma fonte da juventude.

descansa em paz, reguila. o meu coração hoje foi contigo. 27.12.2000 – 29.10.2014

cláudia oliveira.

 

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