[five years later, and still no dance with my father]

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há tantos anos atrás, eu era feliz, tu eras feliz. podes voltar? por mim…
cinco anos. 1826,25 dias. 43830 horas sem ti. sem o teu abraço, sem o teu cheiro. sem o som da tua voz, a ecoar nas paredes do meu coração.
já passaram cinco anos e quem diria que cinco anos passariam a correr assim. quem diria, há cinco anos atrás, que hoje eu me encontrava aqui, a respirar como tão bem soube fazer nestes anos que passaram.
pensei que ia morrer. nunca me senti tão incapaz de viver, tão não merecedora da vida. se tu foste, eu tinha de ir, era simples assim. se tu foste, mais ninguém podia ficar. mas, seja de que forma for, eu fiquei. aqui estou, aqui estamos todos.
lembro-me claramente, e desejava não me lembrar, da última vez em que te vi. de sweat azul escura, calças caqui. impecável, na tua roupa do dia-a-dia, arrumado e limpo. cheiravas bem, penso eu. tinhas o mesmo ar de todos os dias, excepto pelo cabelo, agora quase inexistente na tua cabeça sardenta.
estavas mais magro, mas era normal. a tua barriga continuava um pouco mais saliente, como sempre fora nos últimos anos. terias ainda bigode? não me recordo, mas penso que não; os pelos caíram todos.
de qualquer das formas, estavas como sempre estiveras. eras o mesmo homem que eu conheci e com quem eu vivi. só que estavas deitado numa caixa de madeira, polida e de tampo aberto. exposto. toda a gente olhava para ti, uns com pena, outros com medo, outros sabe-se lá com que sentimento no coração. deu-me raiva, deu-me nojo. ninguém tinha o direito de olhar para ti daquela forma. de te escrutinar. quem pensavam eles que eram? tu não eras deles, tu eras meu, eras nosso.
foi o espetáculo mais triste ao qual assisti, foi ver uma parte de mim ir embora, ser enterrada e nunca mais a recuperar. mesmo que saiba onde estás, para onde foste.
faz, hoje, cinco anos que partiste. é um dia muito claro na minha memória, mas um dia muito escuro no meu coração.
hoje, como pedido destes cinco anos de privação, desejo apenas um abraço teu. sei que não o vou ter, mas um dia gostaria de saber se existe essa possibilidade.
a única vontade, hoje, é chegar o mais perto possível de ti. quiçá atirar-me de uma ponte não muito alta, para um rio não muito fundo, e ficar seis minutos sem respirar, à espera que venhas ter comigo, que me agarres a mão, me beijes a testa e me digas que ainda não é a minha hora.
preciso muito de ti, porque eu ainda sou a menina que era há cinco anos atrás, naquela tarde de dezoito de novembro de dois mil e nove. no fundo, ainda preciso que me vás buscar ao passado e me devolvas o futuro.
beijios no coração, na alma e para a eternidade, todos os dias da minha vida, pai.
obrigada por ainda me permitires escrever rios de palavras sobre ti. obrigada por teres sido quem foste, por teres sido aquele homem. obrigada por tudo, porque tudo nesta vida devo-te a ti. devoto a ti.
vai ser sempre a música que dedico a ti. diz tudo o que eu quero dizer, tudo o que eu sinto.

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cláudia oliveira.

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