[crónicas de um coração partido #1]

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o amor não dura para sempre. sabemos disso desde sempre, esquecendo-nos apenas quando nos apaixonamos. ficamos em tal estado de amnésia que achamos que os nossos meses ou até anos vão contrariar a máxima que a vida criou: nada dura para sempre. eu tatuei-o para não me esquecer, mas esqueci-me. de vez em quando lá me lembro, mas continuo a pensar que podia ser eu a contrariar a ordem natural das coisas. não. a vida não se contraria e é vê-lo (ao amor) a voar e esvair-se no ar, tal como a nuvem de fumo deste cigarro que fumo. e depois eu penso “quando duas pessoas que se amavam, que fizeram promessas, que viveram juntas, que trocaram juras acabam e decidem caminhar por estradas diferentes da encruzilhada, para onde vai o amor que antes as uniu?”
não consigo desligar-me desta ideia, porque o amor que existia e que fora forte o suficiente para mover montanhas não pode morrer de um dia para o outro, especialmente sem direito a velório ou a um luto prolongado. reclamo até um feriado nacional do coração partido. porque devia existir, sendo que essa dor é real, como quem parte uma perna, um braço ou, neste caso, o coração. mas não, a sociedade obriga-nos a vestir a nossa melhor máscara de menina feliz e andar nas ruas, ir ao café ou trabalhar como se não faltasse uma parte de nós.
e depois vejo muitos amores morrerem de um dia para o outro, sem missa de corpo presente, com chocolates e shots à mistura. esquecemos muito facilmente ou será que nunca amamos?
pode o amor morrer sem aviso prévio? ou será que, no fundo, morremos nós com ele? e apenas esperamos quietas e caladas pelo próximo que nos venha salvar? estamos mesmo dispostas a um novo amor para recalcar um antigo? e pode esse novo amor fazê-lo ou também irá esvair-se nas nuvens, sem desfecho final?
não acredito que um amor morra assim, do dia para a noite. que mirre e desapareça, só porque as partes não conseguiram resolver os atritos que se foram encontrando pelo caminho. talvez a pedra tenha sido demasiado grande, confesso, e não podemos julgar isso até a carregarmos às costas. mas o amor, esse, se existia ainda fica. ou as pequenas pedrinhas do caminho vão-no desgastando (ao amor) até chegar uma altura em que ele não existe mais? aí compreendo.
mas não sei o que se faz quando a morte vem de repente, como um ataque cardíaco, e ficamos sem chão. aí sabes que ele ainda lá está (o amor) e ainda te bate no peito (ou no pouco que resta dele). quando assim é, declaro no mínimo dez dias obrigatórios por lei de choro intensivo, cinco de solidão e cinco de lembranças dolorosas do tempo que passou e que talvez não seja reembolsável. depois disso, cabe-nos a nós, aos destroçados, calcular quanto tempo mais precisamos para ir buscar a máscara ao armário, as armas e as armaduras, e sair à rua para enfrentar o resto do mundo.
só quem nunca teve um coração partido é que não entende a dor do luto. só quem nunca teve de ir à pior gaveta lá de casa para disfarçar a dor.

C.

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