[wild nights]

Netflix-Marathon-660

todos temos gostos diferentes, é verdade. mas ontem, senti que ainda existe muito “preconceito” quando falas às pessoas que não gostas de sair à noite, aos vinte e dois anos. não me interpretem mal: eu adoro sair e divertir-me; beber até mal sentir os meus músculos, fumar cigarros despreocupados, rir muito e dançar até aos pés doerem nos saltos altos. mas essa é uma vida que eu já fiz bastante, em tempos. nunca entrei nesse mundo muito cedo, sendo que a primeira vez que saí à noite foi, se a mente não me induz em erro, aos dezassete anos, para a trigonometria e acompanhada pela minha irmã. isto a primeira vez numa discoteca, estou a deixar de fora as raves do básico ou as festinhas do secundário. estava no 12º ano e lembro-me perfeitamente que toda a gente me olhou de lado quando eu disse que ia sair; porque eu era a rapariga que já toda a gente desistira de convidar porque nunca saía à noite, não me arranjava muito, raramente me maquilhava e era aquela que gostava de estudar e de fazer os tpc. toda a gente gostava de mim, na turma, só não me viam como a RP do sítio. não saía à noite e era okay, embora uma outra vez tivesse sentido que tinha perdido uma experiência importante. falso.

quando comecei a sair, coincidiu com a altura após a morte do meu pai e é normal que me tenha rebelado um pouco mais; sentia que tinha de extravasar todos aqueles sentimentos que se apinhavam no meu coração e que os olhos não conseguiam mais chorar. então fui sair, a baixa de faro foi a minha melhor amiga; assim como a minha irmã e a Raquel que, melhor do que ninguém me compreenderam e me ajudaram nas rodadas infinitas de shots que bebíamos. nas garrafas de whisky que virávamos e os safari com cola… enfim, se na altura ainda não fumava, compensava com a loucura da bebida. nesse ano apanhei a minha primeira bebedeira e, apesar de no dia a seguir ter jurado que nunca mais ia beber, não me arrependi e, confesso, adorei a forma como o álcool me fazia sentir.

ou seja eu, uma rapariga que estava de coração partido porque o seu pai tinha morrido, sem sequer um adeus; eu, uma rapariga com paixões platónicas e não correspondidas decidi que, aos dezoito anos, o melhor que a vida tinha para me oferecer era dançar em cima da coluna do first floor e beber absinto. e era boa nisso, meu deus, como eu era boa nisso. raramente tinha ressaca no dia a seguir, o que nunca me fez sentir miserável. os erros que uma noite de bebedeira deixavam para trás, na memória e no corpo, esses sim fizeram-me sentir mal algumas vezes. mas nunca fora nada que mais álcool não apagasse, em combinação com uma daquelas noites com as minhas duas melhores amigas. depois disso veio a faculdade, o primeiro ano, e foi apenas mais do mesmo. e isto parece o diário de uma ex-alcoólica mas não é assim. fui, sim, uma jovem com muito na cabeça e que, uma vez por semana, queria extravasar e, para isso, escolhia o melhor vestido e as quintas-feiras à noite para o fazer.

mas esta vida só me durou três anos porque, no final do segundo ano da faculdade, reencontrei alguém que tinha perdido no final do 12º e a vida começou a compor-se. a minha irmã estava grávida e, quando olhas para isso do ponto de vista de uma míuda de vinte anos, sabes que alguma coisa na vida muda. não sei se foi do namorado, se foi de saber que, agora, ia ter na minha vida um serzinho pequeno que ia olhar para mim como um modelo a seguir, parei de fazer uma vida que não me fazia sentir feliz.

troquei o entorpecimento os músculos pelas borboletas na barriga; o dançar em cima da coluna pelos serões de filmes e de mantas; a bebida pelo café ou chá e a ressaca do dia a seguir pelo acordar ao lado de quem amas.

ontem, ao dizer que não saía mais à noite, porque não tinha nenhum interesse, encontrei-me cercada de olhares reprovadores e pessoas que me acham velha para a minha idade. estou a falar de trintonas, quarentonas com filhos, algumas maridos até, que não abdicam da noite pelo conforto que é estar em casa, com os seus.

mas eu não sou ninguém para julgar porque, há dois anos e meio atrás, não queria ninguém a julgar-me por gostar de afogar os meus pensamentos em shots de tequilla. e não me voltem a interpretar mal: eu ainda gosto de sair à noite, mas agora talvez fique pelo bar/café a fumar o meu cigarro com os meus, a conversar, a dar umas boas gargalhadas e a por a conversa em dia. ainda bebo, mas é tão raramente que já não me lembro da última vez que o fiz (penso que foi ali por volta de abril, e estou a “guardar-me” para o ano novo).

se sinto falta de toda a agitação dessa vida? acho que sim. há dias em que, ao conversar com a minha yeah, sinto falta das pessoas que éramos no primeiro e segundo ano da faculdade. sinto falta de não sentir os meus pensamentos, do entorpecimento do álcool. só que na altura de sair de casa, vejo que me tornei caseira e não há volta a dar, a menos que seja uma ocasião realmente especial. e penso no futuro que realmente quero: uma casa, uma família, uma carreira, estar em casa com os meus. prefiro um dia bem passado com o meu sobrinho, do que um dia de ressaca. gosto mais de uma noite em casa, a bebericar café e a ver séries non-stop. prefiro uma jantarada com os amigos, com algum vinho à mistura e, se houver, tabaco e erva. rimos, contamos estórias, fazemos piadas, somos nós mesmos. vestidos de que forma estivermos, sem saltos altos, sem pretensões.

talvez seja porque já não procure nada lá fora, uma vez que tenho quase tudo o que quero aqui, em casa. no aconchego. claro está que eu tenho apenas vinte e dois anos. e sim, muito provavelmente vou voltar a ter essa vontade de por o meu freakum dress, esticar o cabelo, por o meu baton vermelho e sair à noite. porque às vezes o que a alma precisa é disso, de ver a dobrar, de tequilla com canela e laranja, a minha cortesia (muito melhor do que sal e limão, acreditem). e, quando a alma pedir, é isso mesmo que eu vou fazer. nunca disse que cortei por completo essa parte de mim. só que, por agora, sinto que não me faz falta, nem tenho essa necessidade.

sinto-me completamente embriagada pela vida que tenho. pensei nisso hoje à tarde enquanto bebia café na varanda, por entre bafos frios. e tenho o que preciso neste momento. mesmo que, da minha janela, às quintas à noite ouça jovens loucos por mais um cocktail, sei que não é isso que eu quero, para já.

mas quando fizer falta, tê-lo hei porque i still got it.

dizem que as noites malucas trazem as melhores memórias e eu tenho memórias fantásticas de noites loucas em albufeira, vale do lobo, faro…. mas acho que aqui, na zona de conforto de uma velha aos vinte e dois, estou a criar melhores memórias, memórias para a vida. esta é a minha forma de ser e acho que passámos a ver as coisas ao contrário: agora quem sai à noite, todas as noites é fixe, é in sendo que, os que querem realmente fazer uma vida, seja com alguém do nosso lado, seja com a carreira, somos os antiquados, os velhos e imaginam-nos em casa a fazer crochet. falso. a minha noite pode ser perfeitamente maravilhosa e fantástica em casa, a ver a minha série preferida, fumar um ou dois cigarros e beber um copo de vinho, na minha varanda.

querem melhor do que isto e, ainda a ouvir arctic monkeys? neste momento não penso em nada melhor.

see you tomorrow, and may your dreams be as fantastic as mine, C.

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