[bad habits]

074f38aa0f7cad2257f30edd2c9f476d

ontem pus-me a pensar sobre a causa de todos os nossos medos, de todas as nossas manias e dos nossos bloqueios. de onde vem a maior parte dos nossos traumas, aqueles que sabemos que estão lá, mas que não sabemos como nem quando apareceram. ainda assim, nem sempre nos conseguimos desfazer deles, seja porque estão demasiado enraizados em quem somos, seja porque não sabemos como.

ao pensar nisso ontem, achei que tinha encontrado a razão quando pus a culpa nos meus pais. atribuir a culpa aos pais, que nos criaram e, segundo o que eu achava, alimentraram os nossos vícios em conjunto com os nossos medos, era a resposta fácil para o meu problema. ainda que apenas cobrisse a ponta da ponta do iceberg de todos os problemas.

saiu-me naturalmente e pareceu-me correto assumir que a culpa dos meus bloqueios sentimentais e físicos fosse por alguma coisa que os meus pais fizeram de errado na minha infância. se calhar, o facto de por vezes não me sentir à vontade e confortável em certas situações, foi culpa de alguma vez em que eu fora repreendida por me ter sentido confortável demais quando não devia; se calhar, o meu bloqueio emocional de não conseguir ser mais carinhosa, ou mais suportiva quando devia ser, seja porque me ensinaram sempre a ultrapassar as minhas dificuldades por mim mesma e eu atribuí que os outros deveriam fazer o mesmo, logo não era necessário o meu apoio. talvez, na sua benevolência de me quererem ensinar a ser emocionalmente auto-suficiente, a não depender de ninguém para além de mim e, quiçá, da família mais chegada, arruinaram a minha capacidade de me dar a cem por cento a outra pessoa e de receber cem por cento de volta; estragaram aquele meu lado humano, que tenta buscar forças que não tenho em mim a outras pessoas que me querem ajudar. mas, da mesma forma, também me impediram de procurar ajuda em algo que não existe fora da minha mente. talvez, com a minha educação ateia, me tenham impedido que a minha fé se foque em mais do que um pequeno grupo de pessoas, ou que se foque apenas na força dos homens. se calhar era mais feliz, ao acreditar que, quando os homens falham, existe ainda algo mais onde me segurar.

cresci a acreditar que o pai natal existia, até ao dia em que os meus pais me acabaram com essa fantasia. e eu, algures, agradeci-lhes por me abrirem os olhos. hoje, penso que quero fazer o mesmo com o meu sobrinho, mas depois apercebo-me que a vida pode ser mágica, ainda assim, ao acreditar que um homem barrigudo e de barbas brancas ainda desce pela chaminé e nos vem deixar as prendas que queríamos e que lhe pedimos numa carta escrita de coração nas mãos.

os meus pais nunca me esconderam nada e eu sempre lhes fora grata por isso. acredito muito na educação que recebi, mas ainda assim acho, ou achava, que tudo o que vem de errado connosco, da tenra idade até à maturidade, é culpa daqueles que nos educaram em casa, daqueles que nos ensinaram as melhores e as piores coisas da vida.

sei-o do fundo do meu coração que os nossos pais fazem sempre o melhor para nós. mas quantas vezes o que os pais acham que é o melhor, se transforma naquilo que, de facto, nos impede de ser melhores?

não somos as mesmas pessoas, somos meras cópias de rascunho do que eles foram, versões melhoradas das suas versões beta; e os nossos filhos serão melhores do que nós. seja como for, os pais querem sempre o melhor da sua prole. e, ao quererem tanto ajudar-nos, acho que por vezes acabam por nos estragar.

só que, dando mais do que dois dedos de pensamento sobre o assunto, chego à – ainda – malformada conclusão de que a culpa nem sempre será deles. sim, provavelmente eles estragaram-nos algumas peças fundamentais. mas chega sempre aquele dia em que somos nós que tomamos as rédeas de quem somos e, seja mais cedo do que mais tarde, quando esse dia chega, não podemos continuar a culpar os nossos pais pelos erros que escolhemos não remediar.

a culpa é, então, dos nossos pais ou nossa?

se calhar os meus bloqueios foram incutidos pela minha educação, mas que parte de mim não pode lutar contra eles? afinal, vivo em sociedade com mais pessoas que conheci ao longo desta curta vida. aprendi muita coisa com os meus pais que não pode ser desaprendida, mas ao mesmo tempo sei que aprendo todos os dias muita coisa com todas as outras pessoas com quem me cruzo durante os dias e as noites.

vejo nos outros muitas das coisas que não me consigo ver fazer ou dizer e culpo os meus progenitores por nunca me terem deixado fazer, dizer, etc… mas nada me impede de corrigir isso. talvez culpá-los tenha sido a parte fácil, ao invés de admitir que se calhar a fórmula mágica esteve sempre nas minhas mãos e sempre dependeu de mim usá-la para me transformar e mudar as minhas manias.

é fácil culpar os pais, porque sabemos que provavelmente tudo aconteceu numa altura em que podíamos fazer muito pouco por nós mesmos. e, pais que eram, confiávamos neles com todo o nosso coração. essas coisas não mudam, mas o que pode mudar são todos esses hábitos que alimentámos ao longo da vida e que nunca quisémos pensar muito bem de onde vieram e o que podemos fazer para os parar.

afinal, a partir de um certo ponto, passamos a ser nós os nossos educandos. já podemos assinar documentos sozinhos, já podemos viajar sozinhos e, da mesma forma, podemos aprender sozinhos o que se adequa melhor ou pior à pessoa que somos. os pais também servem para consultar nessas alturas.

mas não nos podemos esquecer que a transformação começa sempre de dentro para fora, tal como uma minhoca num casulo, a momentos de se transformar numa bela borboleta. qualquer ajuda externa antes do momento certo pode matá-la.

Cláudia Valentim de Oliveira

27.12.2014

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s