[master your mind]

 “War is peace. Freedom is slavery.  Ignorance is strength.” – 1984 Orwell.

a sede é necessária. na vida, estarmos sedentos é uma necessidade básica, tenho para mim. estar com sede, significa querer beber e, com isso, hidratar o nosso corpo ou, da mesma forma, o nosso intelecto.

toda a minha vida tive sede, fosse do que fosse. normalmente, aniquilava-a com pensamentos e sonhos de um dia realmente beber essa água ou sorver desse líquido poderoso que me iria dar sentido à vida. mas, ultimamente, tenho reparado que essa sede não passa só e apenas com ideias. agora preciso realmente de provar tudo o que há a provar de forma a que ela passe. viver sedenta é viver em agonia e eu sinto que a cada dia que passa a minha garganta se apresenta mais seca e me custa mais a engolir. sei o que é: é sinal de que essa sede se está a transformar e a tomar conta de mim. tenho de sorver.

mas os pequenos bocadinhos de água com que me vou alimentando não chegam para parar a tormenta; se me dou um pouco, o meu corpo quer mais, precisa de mais, procura mais. e sempre assim, bebo um pouco e quero mais. sinto-o em mim que preciso de esvaziar todo o poço por onde jorra o líquido precioso.

li, no outro dia, que o maior combustível da vida é aprender, conhecer, superar… e viajar, claro. de que forma juntar todas estas coisas e ainda ter uma experiência agradável se não for a viajar? a descobrir locais que nos assentam melhor do que o nosso melhor vestido; sítios cuja pele seja a nossa, e estradas que nunca percorremos mas que sabemos melhor do que a palma das nossas mãos? a ser de borla, viajaria a minha vida toda, já que o meu poiso definitivo não tem lugar marcado, ainda. sei do que gosto e sei de sítios  onde ficaria pelo puro prazer de ficar e de me deliciar em paisagens e locais que sei de cor. mas ainda assim sei que “estou bem onde não estou” e que irei para onde ainda não fui. infelizmente a vida prende-se em mais do que apenas ir. o verbo ir é dos meus favoritos, ao contrário de ficar que, embora ame, é daqueles que me sugere que, afinal, a liberdade ainda é um conceito que não aprendemos bem. ser-se livre é mais do que dizer/escrever o que se quer e o que se pensa, ou poder andar na rua de mão dada com o namorado que não é da nossa raça. ser livre, é poder ir quando se quiser ir e ficar se se quiser ficar, dando explicações a ninguém para além do nosso coração. e nós não somos mais livres do que seres que respiram por liberdade mas que ainda têm de planear as suas escapadelas de acordo com os horários da faculdade, do trabalho, do companheiro de viagem… ainda precisam contar as moedas ou fazer mealheiro… assinar vistos ou pedir termos de visitantes. a liberdade é uma utopia e é uma que está ainda longe de deixar de o ser.

nem na maioria das nossas escolhas somos livres, uma vez que somos levados a tomá-las por terceiros e por partes de uma máquina capitalista e mind-controler que nem sabemos de onde vem. somos levados a comprar artigo x na altura y porque decidem que seja essa a data em que os preços estão ajustados ao valor que decidem que é o correto. impingem-nos que vejamos programa beta porque não passam programas alfa numa TV controlada por media que somos ensinados a idolatrar e a aceitar sem duvidar. e, quando duvidamos, é muitas vezes uma dúvida incutida por esses mesmos media, numa espécie de controlo da mente ao estilo de 1984 de Orwell.

e para nos safarmos de todas estas coisas, temos de ter sede. sede de ver outras coisas, conhecer outras caras, comer outras comidas, vestir outras roupas, ver outras coisas e, acima de tudo, ler outras coisas. não os catálogos de moda ou o best-seller que nos vende mentiras forjadas. mas coisas que nos façam a mente trabalhar numa esplanada de um jardim. 1984 é um ótimo exemplo disso, é daqueles contos que nos fazem acreditar em toda uma sociedade imaginada que pode muito bem ser a nossa (e até que ponto não é, mesmo?)

faz-nos bem ler muito, por a nossa mente a pensar, o nosso cérebro a absorver conhecimento e a produzir cenários, falas, vozes e pessoas que não conhecemos para além da descrição dada ou não pelo escritor. por o nosso cérebro a conhecer estilos, a saber quando é à em vez de ou tem em vez de têm. tudo isso parte de ler mais e exercitar a nossa mente mais. e não só: ver documentários em deterioramento de filmes e séries que nos mostram cenários de terrorismo me que os EUA são sempre os coitadinhos e que os outros estão sempre a querer derrubá-los. mais documentários que mostrem a verdade por detrás daquela máquina de 50 estados mentirosos e manipuladores (noutro texto venho-vos falar do meu choque depois de ver cowspiracy e fed up).

1984-poster-1

somos seres humanos inteligentes, ou assim somos levados a querer. nascemos numa época e num país/continente em que o acesso à informação nos é fácil e gratuito e ainda assim escolhemos deliberadamente olhar para o lado e ignorar toda essa informação e passear nas ruas, embelezar o exterior do que empregar bem uma vírgula ou saber conjugar o verbo haver.

especialmente num mundo em que mulheres de outros países lutam, todos os dias, por direitos iguais aos ocidentais, por educação, conhecimento ou, apenas, carta de condução… e nós, que nascemos com todos esses direitos mas sem a obrigatoriedade de usufruí-los, preocupamo-nos com aquilo que menos interessa, passamos a imagem errada e ainda partilhamos frases humilhantes e diminutivas nas redes sociais como “uma mulher pode governar o mundo, depois de escolher o vestido ideal”.

isso ataca o meu último nervo, enoja-me. sendo mulher, acho que não existe nada mais pequenino do que achar que uma mulher tem de ir de salto alto e vestido justo ao rabo para governar o mundo. esquecemo-nos das Malalas que lutam todos os dias e esquecemo-nos dos prémios nobel que ainda podem ir para muitas mais mulheres. porque achamos que o importante na vida de uma mulher não é conhecer mais, nem saber mais, nem quiçá ler alguma coisa que figure na lista dos 100 livros que toda a gente devia ler (o meu mais recente hobby), mas sim que o que mais importa para uma mulher é qual o sapato que vai levar para a passagem de ano, ou achar que a saia que leva para uma reunião ou apresentação da faculdade é mais importante do que o discurso per se.

este ano, o que eu pedi ao pai natal foram livros. fiz uma lista de livros que queria mesmo receber (todos da lista dos 100) e quem me quisesse dar alguma coisa, saberia que tinha apenas de ser aquilo. foi o primeiro natal sem surpresas no que toca às prendas que a minha família me deu: sabia que a minha irmã me ia dar to kill a mockingbird (quem matou a cotovia), da Harper Lee e fiquei radiante quando abri o embrulho da Bertrand. depois pedi the brave new world (admirável mundo novo) do Aldous Huxley mas estava esgotado, por isso fica para eu me oferecer numa próxima. e ainda, num ato impulsivo em plena secção literária da FNAC, comprei o angolano que comprou Lisboa (por metade do preço) do Kalaf Epalanga, um dos fundadores dos Buraka Som Sistema. li nessa manhã que ele tinha lançado um livro e comprei. porque sim, sem razão aparente. só que foi das minhas melhores surpresas de sempre e estou a adorar. depois, na falta de Hemingway e esses sim com confessa surpresa, ainda recebi António Lobo Antunes e José Luís Peixoto para ler (com quem terei o prazer de trabalhar para o ano, mas isso virá noutro post).

portanto, eu recebi o que eu pedi e sem surpresas, fiquei radiante de felicidade. cereja no topo do bolo, a minha mãe “reofereceu-me” o meu boneco de estimação que tenho desde que tenho um ano e que eu de há meses para cá julgava para sempre perdido.

não quero pregar aqui que apenas nos interessemos por beber da fonte do intelecto, uma vez que eu também bebo muito da fonte do entretenimento e gosto. mas faz tão bem beber de ambas. fazer um detox de capitalismo televisivo, musical, consumista e olhar para aquilo que está mesmo à nossa frente e que escolhemos ignorar tão facilmente.

se nos foi dado um cérebro é suposto exercitá-lo, alimentá-lo. de que outra forma nos podemos dizer superiores a todos os outros animais se não o fazemos?

temos as duas opções, só peço que uma vez por outra, usemos a outra que gostamos de deixar na estante a apanhar pó. é só.

mas, mais importante do que tudo isto que eu acabei de escrever, e correndo o risco de me tornar um pouco contraditória, não deixem que nada vos impeça de ser quem são realmente. quer sejam o tipo de ficar em casa ou no jardim da Estrela a ler, ou quer sejam do tipo de comprar sapatos e malas e chapéus e sair à noite a beber mojitos. nenhuma dessas escolhas é completamente errada e aliás, podemos ser os dois (é o ser humano quase-ideal). mas, enquanto que o leitor pode e deve beber um mojito once in a while, o festivaleiro pode e deve ler um livro, ver um documentário… saber. a base é o equilíbrio, sempre.

“Until they became conscious they will never rebel, and until after they have rebelled they cannot become conscious.”
George Orwell, 1984

1984 – filme

beijos e boas entradas em 2015, se não nos lermos mais até lá. C.

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