[reminiscence]

fragmentos. Outubro, 2014

eu escrevo bem, ou mais ou menos bem. sou boa com as palavras, gosto disto, faz-me bem. talvez por isso, exija demasiado das outras pessoas, em relação ao dizer, ao escrever. talvez por eu passar tanta coisa para o papel, para as letras, queira que me passem o mesmo. talvez por ser demasiado exigente comigo mesma, queira que os outros o sejam consigo e comigo. só porque gosto de dizer, em palavras, não posso exigir que mo escrevam o mesmo. porque o que eu escrevo, nem sempre sei dizer. e tenho quem mo diga, de noite, no meio de um sonho e de uma volta na cama. e não há melhor do que isso. Do que aquele declarar de sentimentos inconsciente, quando tudo o que queremos é dormir, mas que sentimos a presença do outro ao nosso lado e, na sonolência, dizemos o que queremos, pensamos e sentimos.

não me posso queixar, mas a verdade é que ainda me queixo. é mimalhice minha, é de eu ser casmurra, de ser taurina, não sei do que é. mas eu ainda reclamo, ora porque acho que não me dás a devida atenção, ora porque não me mandas mil-e-uma sms’s por dia, ora porque não me respondeste da forma que eu queria, ora porque não me fazes as vontades todas – que são muitas, até. sou uma mulher de vontades.

eu ainda reclamo porque teimas em não entender quando eu estou a brincar e quando estou a falar sério. ainda não compreendes que eu gosto de prolongar as minhas brincadeiras para além do suposto, gosto de puxar a barra enquanto ela ainda aguenta e, só depois de partir, consigo compreender que, talvez, tenha puxado demasiado.

eu reclamo porque vês aquela série sem mim, ou porque preferes um jogo de futebol a irmos jantar fora. porque nem sempre me levas a passear aos sítios bonitos, e eu que gosto de passear.

eu vou sempre reclamar que não me dês rosas, nem flores, e que os meus dedos não tenham anéis com pedrinhas bonitas e brilhantes. Ligo pouco ou nada a isso, mas hei-de mencionar sempre que nunca perdes tempo a pensar em dar-me coisinhas fofas. que, ao contrário de mim, não acordas cedo para me preparar o pequeno-almoço na cama, nem te esforças por gostar das minhas panquecas de alfarroba, que sabem demasiado a bicarbonato de sódio.

reclamo porque não danças kizomba comigo, não gostas nem queres aprender. não queres ir a um lugar fora da tua zona de conforto por mim, e eu reclamo.

mas nunca me vais ver reclamar dos nossos bocadinhos de terreno a dois, daqueles dias passados na cama a ver séries, daquelas tardes onde vias televisão e eu lia um livro, ambos no silêncio e no barulho que fazemos. nunca vou reclamar que prefiro outro carinho ao teu, porque embora reclame – injustamente -, a escassez dele, nunca hei-de reclamar da qualidade.

tens-me aqui a admitir que eu sou uma reclamadora nata, e isso não é fácil.

de ti, não tenho exatamente tudo o que eu queria que me desses, mas é dos que nos dão tudo que nós fugimos. daqueles que nos satisfazem todas as vontades, até que passamos a ter vontades de outros. e eu tenho sempre vontade que me faças algo mais, algo de forma diferente. mas nunca me desafaço da vontade contigo. 

eu quero que viajemos mais, e nem sempre te consigo convencer de que essas são as experiências que nos vão tornar melhores e nos vão fazer felizes; que é daí que teremos histórias para contar… mas nesta minha luta, tu és sempre quem eu quero que viaje comigo, com quem eu quero subir a muralha da china, ou nadar na costa de malta.

eu gosto de escrever e, das poucas vezes em que te arranquei um pequeno texto, puseste tudo de ti. com as vírgulas nos lugares errados, ou com muita falta delas; de ideias misturadas e pouca clareza, vi que o teu coração batia de uma forma muito bonita. e, que ainda me posso dar ao luxo de saber que ainda fazes muitos esforços por mim. que fazes, mesmo que eu reclame deles…

hei-de reclamar sempre, porque se eu não o fizer, é sinal de que já não me importo. de que acho que não vale mais a pena, contigo, e passo a querer reclamar de outra pessoa.

ainda ontem reclamei contigo, ainda ontem fui mesquinha e tu aturaste. como tens aturado ao longo de todo este tempo. de todos estes dias. e, se recuar nos quatro anos em que nos conhecemos, sempre aturaste melhor do que a maioria as minhas reclamações. naquela altura era de falta de espaço, hoje é falta de sufoco.

a verdade é, que eu nunca estou satisfeita. esta tremenda insatisfação que eu quero que tu vejas, que tu pegues nela e a apagues. e é o que tens feito, dia-após-dia, ao aturar-me. ao pedir-me para ter paciência contigo e ao tê-la comigo. assim, olha, reclamo menos. por aqui. porque mais logo, hei-de reclamar de novo. do quê não sei, arranjo qualquer coisa.

porque enquanto estás aí e eu estou aqui, reclamar faz-me sentir que isto corre a mil, ainda. e, quando reclamo ao teu corpo presente, comigo, é porque sei que sabes que eu não o faço por mal. eu nunca o faço por mal. mal de mim, sou “reclamadora” nata.

por: Cláudia d’Oliveira

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