[fragmentos #4]

(…)

foi ter ao quarto, meteu-se nas mantas, virou-se para o lado e fingiu que adormecia… não queria falar com ele, mas queria que ele falasse com ela; queria sentir a sua mão nas costas, o encostar do seu corpo ao dela…. ficou muito quieta, até que suspirou… mas nada: nenhum calor humano, nenhum som de respiração, nenhum movimento que denunciasse que ele ainda a queria; que ele ia fazer um esforço por ela… adormeceu.

quando acordou, o sol ainda não ia alto, mas já se ouviam seres vivos nas árvores, a cantarolar o começo de um novo dia… rolou na cama, ensonada mas expectante… mas não o viu. onde era suposto ele estar, estava apenas um emaranhado de lençóis frios… frios, porque o seu corpo saíra faz tempo…

apeteceu-lhe chorar, mas engoliu as lágrimas, levantou-se e vestiu o robe. foi à cozinha, num chamar silencioso pela pessoa com quem adormecera. nada. o copo de café estava morno, a máquina ainda ligada… provavelmente teria-se levantado cedo, mas teria ficado em casa até à pouco tempo.

como é que isso lhes aconteceu, e o que quereria dizer isto?! nunca antes se haviam deitado chateados, porque sempre foram adeptos de, custasse o que custasse, resolver tudo antes de dormir. mas ontem, não conseguiram resolver nada, porque o nó na sua garganta era demasiado grande para conseguir falar, e ele também não deu o primeiro passo… teria-se atirado às suas pernas, implorado que a perdoasse, se soubesse que isso iria fazer a diferença, mas o bloco de gelo em que ele se tornava impedia-a sequer de tentar.

10868224_797210483660211_854484364720625337_n

era quase impossível penetrar por aquelas paredes de aço e, agora, perguntava-se se algum dia iria conseguir remediar tudo o que fora dito horas antes. o dia era outro, mas os pensamentos ainda eram os mesmos. claro que se arrependia do que tinha dito, havia muito pouca verdade em todas aquelas declarações mas, como em tudo o que nos sai da boca, já havia pensado em tantas outras coisas, mesmo que levemente. e ontem, tinha-lhas dito, sem filtros, à espera de o magoar como ele a magoara a ela, mesmo que sem saber.

nunca temos a intenção de magoar quem amamos, pensou. mas a verdade é que o fizeram, ambos, com ou sem a intenção. mas a ferida estava lá, a dor tinha vindo para ficar.

e, agora, sozinha na cozinha vazia, agarrada a um copo de café já frio, pensava no destino que os levara para ali e do qual já não sabia se conseguia escapar.

10456066_790323887682204_7293928231449947974_n

(…to be continued…)
por: Cláudia d’Oliveira
13.01.2014

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s