[a linguagem é uma fonte de mal-entendidos]

às vezes não sei se é preferível ficar calada. não dizer o que o peito quer, porque nunca sabemos onde as palavras nos podem levar. é disto que eu não gosto, do não saber onde está a poça que posso, ou não, pisar nesta coisa dos diálogos com outro ser humano.
a interação nem sempre é fácil e pacífica, muitas vezes fazemos asneira sem intenção, magoamos intencionalmente… depois dizemos coisas que não devíamos, ou não dizemos o que queremos e fica sempre aquela ideia que paira, para mais tarde ou mais cedo, ser usada a nosso desfavor.
nunca é uma situação de total ganho, porque afinal, nisto das relações humanas, nunca podemos ter dois lados a ganhar de forma igual. é uma merda, pois é, que isto de balançar o que é proveitoso para nós e para o outro, acaba por ser exaustivo.
às vezes só me apetece ir para uma ilha, levar os meus livros, a minha música, o meu café e uns maços de cigarros e que ninguém me chateie. é muito mais fácil assim, é por isso que eu prefiro livros do que pessoas, é por isso que muitos dias me arrependo de sair de casa, de ligar o telemóvel, de responder às mensagens, de ir a encontros em cafés… de socializar.
epá, é necessário, sim senhores. mas é uma necessidade que eu tenho tão poucas vezes, para ser sincera, que passo bem sem isso, 6 dias por semana.
devia instituir o meu dia do sociável – que seria a uma segunda-feira, para despachar logo com isso -, e daí para a frente era eu comigo mesma e com os meus livros, os meus filmes…
só que também faz falta, aqui e ali, contacto humano, especialmente com pessoas com quem criaste laços fortes, daqueles laços de que fala a raposa n’O Principezinho. aquelas pessoas que te cativaram, que tu cativaste, e das quais ficas à espera desde as três da tarde, de coração aos pulos, porque sabes que às quatro elas chegam. só que nem sempre chegam. ou não chegam à hora combinada, ou acabam por não vir. e, mais uma vez, aquele que é um dos principais livros da minha vida está correto. de facto, não é sempre bom dares-te demasiado às pessoas, porque pressupõe sempre que crias um laço, e que passas a necessitar delas. quer se queira, quer não, precisamos das pessoas de quem gostamos. fomos cativados.


Le_petit_prince_by_KEileena

« – O que é que “estar preso” quer dizer?
– Os homens têm espingardas e passam o tempo a caçar – disse a raposa. – É uma grande maçada! E também fazem criação de galinhas! Aliás, na minha opinião, é a única coisa interessante que eles têm. Andas à procura de galinhas?
– Não – disse o principezinho. Ando à procura de amigos. O que é que “estar preso” quer dizer?
– É a única coisa que toda a gente se esqueceu – disse a raposa. – Quer dizer que se está ligado a alguém, que se criaram laços com alguém.
– Laços?
– Sim, laços – disse a raposa. – Ora vê: por enquanto, para mim, tu não és senão um rapazinho perfeitamente igual a outros cem mil rapazinhos. E eu não preciso de ti. E tu também não precisas de mim. Por enquanto, para ti, eu não sou senão uma raposa igual a outras cem mil raposas. Mas, se tu me prenderes a ti, passamos a precisar um do outro. Passas a ser único no mundo para mim. E, para ti, eu também passo a ser única no mundo…»


e depois, quando a nossa necessidade não é preenchida de acordo, sofre-se. é mais ou menos isto. e finge-se que não dói nada, porque não vá isso afastar a outra pessoa, não vão as tuas necessidades serem demasiadas, não vá o universo decidir que estás a pedir demais e que, afinal, já não mereces o que tens. uma palmadinha no pulso, como se faz com os bebés, mas da Vida. que te vai ensinar a não ser demasiado exigente. e que te diz “contenta-te com o que tens, que já é muito. não vás querer demais, ou perdes tudo. é a última vez que te aviso.”
e pronto, engoles o choro, sorris e, afinal, achas que a Vida tem razão, que realmente deves parar de querer mais. que, ao contentares-te com aquilo que tens, podes conseguir ser feliz.
e não é totalmente mentira, só que nunca sei que palavras usar. caminho, pé-ante-pé, com cuidado para não pisar alguma coisa que não deva, com medo de partir.

é por isso que eu gosto mesmo dos livros, que não reclamam se eu os ler trinta vezes, nem se lhes dobrar um cantinho da página, ou se os cheirar à exaustão. gosto deles, quero-os comigo. é por isso que, mais do que lê-los, os compro, os guardo, os estimo.
a gente estima as pessoas e as pessoas aceitam mal essa estima.
sei lá, hoje a minha tolerância para relações socio-afetivas está confusa. porque, afinal, o que eu retiro de toda esta confusão emocional é que, embora tenhas sido cativado/a por outro ser humano, não quer dizer que o tenhas, da mesma forma, cativado também.
se calhar esta coisa às vezes só funciona para um lado. se calhar, é demasiada pressão, seres responsável por tudo aquilo que cativas.
e que grande merda que é, teres de esperar sozinho pelas 4 da tarde.


«A raposa calou-se e ficou a olhar durante muito tempo para o principezinho.
– Por favor…Prende-me a ti! – acabou finalmente por dizer.
– Eu bem gostava – respondeu o principezinho – mas não tenho muito tempo. Tenho amigos para descobrir e uma data de coisas para conhecer…
– Só conhecemos as coisas que prendemos a nós – disse a raposa. – Os homens, agora, já não têm tempo para conhecer nada. Compram as coisas já feitas nos vendedores. Mas como não há vendedores de amigos, os homens já não têm amigos. Se queres um amigo, prende-me a ti!
– E o que é que é preciso fazer? – perguntou o principezinho.
– É preciso ter muita paciência. Primeiro, sentas-te um bocadinho afastado de mim, assim, em cima da relva. Eu olho para ti pelo canto do olho e tu não me dizes nada. A linguagem é uma fonte de mal entendidos. Mas todos os dias te podes sentar um bocadinho mais perto…
O principezinho voltou no dia seguinte.
– Era melhor teres vindo à mesma hora – disse a raposa. Se vieres, por exemplo, às quatro horas, às três, já eu começo a ser feliz. E quanto mais perto for da hora, mais feliz me sentirei. Às quatro em ponto já hei-de estar toda agitada e inquieta: é o preço da felicidade! Mas se chegares a uma hora qualquer, eu nunca saberei a que horas é que hei-de começar a arranjar o meu coração, a vesti-lo, a pô-lo bonito…São precisos rituais.»

principezinho e raposa_001


«- Os homens já se esqueceram desta verdade – disse a raposa. – Mas tu não te deves esquecer dela. Ficas responsável para todo o sempre por aquilo que está preso a ti. Tu és responsável pela tua rosa.»
Cláudia d’Oliveira
14.01.2015
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