[desculpas para escrever: professor]

lembro-me muito bem dela, como se fosse ontem que me dera aulas. era velhinha, tinha os cabelos brancos, era magrinha, muito simpática e educada. mas, do que mais me lembro, era de nos levantarmos das cadeiras, no início da aula, e de lhe dar bom dia.
na altura não o sentia como obrigação, mas sim como respeito que tinha (e tínhamos por ela). gostava muito dessa professora, embora não me recorde do nome dela. recordo-me, porém, de no final das aulas, a turma inteira ir vê-la ir-se embora, entrar no carro velho (verde-seco, se a memória não me atraiçoa), fazer uma festinha à cadela castanha e dar um beijo na boca ao marido, também ele velhinho. e lembro-me do meu coração sorrir e de dos meus olhos saírem estrelas, ao pensar como era belo e lindo um casal gostar tanto um do outro, velhinhos.

todos os dias ele ia buscá-la à escola e, todos os dias religiosamente, a turminha de primeiro ano ia espreitar o gesto de amor.
todos os dias contava aos meus pais o que a professora me ensinara a fazer e que, no final, íamos assistir ao momento privado de afeto dela.


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esqueci o nome, mas não me esqueci da cara.
não me lembro exatamente de aprender algo específico com ela, mas foi a minha primeira professora do primeiro ano. antes de todas as mudanças de escola e de casa.

gostei muito dela e adoraria saber o que é feito da professora de cabelos brancos. gostava de saber se a cadelinha ainda é viva ou se ela e o marido ainda dão beijos espontâneos de amor.

é das fotografias mais bonitas que tenho na minha cabeça. foi a minha primeira professora e, sem saber, invejei-lhe aquele grande amor. desde aquela altura, na inocência pura e doce dos meus 6 anos que soube: também eu, um dia, teria um marido velhinho que me iria buscar ao trabalho, com a nossa cadela e dar-me um beijo com o mesmo amor que teve por mim muitos anos antes.

ali, com 6 anos, ainda sem saber ler nem escrever corretamente, aprendi que queria dedicar a minha vida a esta sensação de coração cheio ao ver duas pessoas que realmente se amam. ainda não sabia que iria ser a escrevê-los – casais -, mas sabia que o amor iria fazer parte da minha vida, como a minha maior paixão.

c.

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