[deixem-nos ser]

Somos pedaços de uma coisa qualquer, disse-lhe.
Ela nunca acreditou. Lá no fundo, ela acreditava que
éramos duas coisas diferentes, só que iguais no seu
âmago.

Odeio rótulos! – disse-lhe. – Odeio que me rotulem!
Odeio que me chamem coisas porque sou isto ou aquilo!
Odeio que me metam num molhe de pessoas com algumas
caraterísticas em comum e nos achem 100% homogéneos.
Odeio essas palavras começadas por Homo. Odeio
homogeneidade, gosto mesmo é das coisas que não
encaixam em lado nenhum; gosto mesmo é daquelas massas
do bolo com grumos e bolhas de ar, de coisas
imperfeitas. Merda! eu sou imperfeição no meu ser,
desde as minhas células ao meu cabelo – a minha cor da
pele. E o imperfeito não é bonito? É lindo, é único e é
algo que eu nunca trocaria.



Odeio rótulos. Odeio que me digam o que ser – EU SOU O
QUE EU QUISER.
Eu não gosto do conceito de homo, hetero ou bissexual.
Eu não me sinto atraída por sexos, sinto-me atraída por
pessoas.
Gosto de pessoas, tenho a capacidade de amá-las. Se for
um homem, uma mulher, seja o que for: consigo amar
pessoas, antes de amar sexos. É assim tão difícil
aceitarmos que as pessoas se possam amar, livremente?
Aposto que há um nome para isto. Fui pesquisar –
chamam-nos Pansexuais. É um nome estranho e eu não
gosto. O meu nome é o que me deram e a minha orientação
sexual é aquela que eu quiser. Aliás, rectifico: AS que
eu quiser.

Gritou! Só lhe apetecia gritar: deixem-me ser! Deixem-
me amar quem eu quiser, deixem-me ser! (can I live?)

Adormeceu pouco depois, mas ainda chorava. A sua alma
chorava, triste, por não a deixarem ser sem a conotarem
de alguma coisa. Não quero ser “alguma coisa”, quero
apenas ser. É preciso dar nomes a tudo? – pensou.

No sonho que a consumia, lembrou-se de que conseguia
“apenas ser”, desde que vivesse no casulo do seu
coração. Quem não conseguia aceitá-lo não devia entrar.
O mundo era a sua ostra e tudo o resto o mar. E no mar
sentia-se feliz, no mar navegava para longe dos seus
medos de não pertencer. Ali, no seu coração, pertencia
ao único sítio onde lhe interessava pertencer: a si
mesma.

21

 

 

(esta podia ser eu; e sou eu. Devíamos ser todos nós e SOMOS todos nós).

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